sábado, 26 de dezembro de 2009

ubi erat Ioannes baptizans primun

Considera ciò, che da te ricerca il Signore per coronarti, ch'è che combatti contro tuoi scorreti appetiti. Este é o combate que lhe dará a santidade e não orações, revelações e todas as devoções exteriores. Tais são apenas meios ou fruto da santidade. É preciso combater legitimamente, em verdade. Não largar nunca da lança. O Senhor não pede que triunfes, mas que combatas, continuamente, sem dar trégua ao inimigo. As batalhas espirituais são diferentes das batalhas materiais. Nestas, tu te cansas com a luta; naquelas, tu ficas mais forte quando combates. Três são as tuas armas: a desconfiança de ti mesmo, para que nunca dês o combate por cumprido; a confiança em Deus, ele só pode te dar a vitória; e a oração, o meio para pedir a ajuda de Deus. Nei giuocchi Olimpici, chi metteva il premio a i Lottatori, non dava ancora le forze. Sedeva a Giudice della Lotta bensì, ma non si moveva a socorrere, a sostenere, ò a levare alcuno di terra. Stava qual semplice spettatore ozioso. Iddio non così. Ti promete la gloria e ti dá la grazia; ma vuol que tu glie la chiegga continuamente.

(febbrajo xxiii, 2. ad Timóteo 2, 5, Qui certat in agone)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

apenre pos, non sui tan veillz

Nada mais natural do que uma conexão entre condenação da fama mundana conduzida por Segneri e o culto contemporâneo da celebridade. Sua análise é tão serena e precisa que aplica-se com facilidade ao noticiário do dia, desdobrando-se de forma criativa na indagação do que seria a fama de cada um perante o Senhor. Ele - que tudo sabe - não precisaria dos caminhos incertos do rumor para formar seu julgamento sobre cada um. No entanto, a figura retórica mantém sua força.

Se existe uma lição, contudo, que sempre sobrevive ao teste da realidade é aquela registrando as virtudes públicas decorrentes de vícios privados. Em vários aspectos, o que pode parecer aberrante do ponto de vista individual - a avareza, a genialidade, o gosto pela fofoca, etc - pode produzir vantagens sociais substantativas - o investimento, o desenvolvimento tecnológico, a imprensa. Não é diferente com a busca da fama terrena e vejo com fascinação o exame do tema pelo Tyler Cowen.

Em Qual o Preço da Fama? Cowen chega a dezenas de conclusões fabulosas, do plano moral à filosofia política, que não podem ser resumidas em uma nota breve. Quase todas, por sinal, decorrentes dos mesmos mecanismos descritos por Segneri. Ele sugere, por exemplo, que a busca da fama tem um impacto financeiro negativo sobre as celebridades, que, na média, extraem rendimentos decrescentes de seu investimento em se tornar e manter famoso. Não nos iludamos com meia dúzia de bilionários famosos, a realidade das profissões que dependem da fama é cruel. De outro lado, na média, os fãs normais extraem sentido e satisfação existencial com muito menos investimento pessoal na indústria da fama. A escala social que torna viável a cultura pop é sustentada, na verdade, sobre dois tipos de vítima: o aficcionado obsessivo e o famoso fracassado. Cowen não tem dúvida de que boa parte da economia americana está relacionada à indústria da "fama", mas concordaria com as advertências de Segneri sobre o danos morais pessoais da mesma.

Cowen atinge alturas filosóficas quando analisa o impacto da fama moderna sobre a política e sobre o poder. O Estado Moderno é muito mais poderoso do que qualquer versão similar do passado e os riscos associados à liderança política são, portanto, muito maiores. Os holocaustos modernos comprovam o poder da seriedade e do messianismo. As eleições, contudo, terminam forçando o político moderno a se tornar uma celebridade e, com isso, ele vai perdendo algo de sua seriedade. Ao depender da fama, vai se tornando mais ridículo. Há 30 anos, um chefe de Estado com uniforme militar causava alguma impressão; hoje é visto como um personagem de opereta. Segneri, no fundo, tem toda a razão.


Videte et cavete ab omni avaritia

Considera, dove al fin si riduce tutto quel bene, che può venirti dalla lode degli huomini. Possono dirti beato, ma non già farti. Beatum dicunt. És, na verdade, como estás diante da face do Senhor. Como vais perdido por conta das loas à vaidade! Quem te louva, não faz bem a ti e mal gravíssimo te faz. Roubam o conhecimento real de ti mesmo, fazem crer naquilo que não és. Cobrem os teus defeitos, dão desculpas, dizem que é virtude o que é vício. E tu tanto amas o que dizem? Eles te tiram da melhor estrada que há - a Humildade. É a estrada que Cristo trilhou na Terra, que calcaram tantos santos, tantas almas caras a Deus. Depois que tanta estima fazes de ti mesmo, vem o desprezo ao próximo e a sobera. Ó que ruína indizível. Considera com que forte resolução deverás renunciar a qualquer loa que te possa vir dos homens. Não trabalhar para estimulá-las, não aceitá-las, não lhes dar albergue na mente, desprezá-las, desvia-te dos raciocínios que te provocam como de provocadores importunos e finalmente avvezzati a voler solo nelle tue cose l'approvazione da quel Signore, che non solo può dirti beato, ma ancor può farti.

(febbrajo xxii, Popule meus, qui te beatum dicunt, Isaías 3. 12)

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

così restituito alla fortunata sua madre

O espetáculo de fé das Missões do padre Segneri não se limitava às missas e penitências. Havia um empenho direto na correção dos costumes, a começar das rixas e vinganças endêmicas no meio rural italiano. Identificado o ofendido pela morte de um parente e, portanto, responsável pelo reinício do ciclo de mortes, Segneri iniciava seu assédio que podia incluir, caso nenhum convencimento fizesse efeito, a própria flagelação, realizada em favor do renitente. Tão efetivo era o procedimento que as pessoas que buscavam preservar seu sentimento de vingança fugiam ou se escondiam, principalmente quando mulheres. Segneri buscava todos os envolvidos onde estivesse e promovia o seu teatro dramático do arrependimento.

Outro capítulo inevitável da reforma dos costumes era o combate ao jogo de cartas (cujo fornecimento no Antigo Regime era sujeito a um regime fiscal específico) e às canções profanas. Nos eventos das Missões era rotineiro pedir pelos baralhos e queimá-los na frente de todos. Não faltava sequer um elemento de incentivo: os baralhos eram trocadas por medalhas com a efígie do Papa. Quanto às canções profanas, Segneri e seus auxiliares buscavam apenas substituí-las, distribuindo hinários e poemas sacros.

Tal ofensiva cristã despertava, naturalmente, a reação das forças infernais, que promoviam todo tipo de acidente, aproveitando-se das multidões reunidas: quedas de pedras, de pontes, enchentes, barulhos eram os estratagemas do Inimigo para perturbar as Missões. As tragédias, contudo, eram sempre evitadas por fatos maravilhosos e há mesmo uma nota de rodapé assegurando que tais fatos foram testemunhados por um sacerdote. Talvez não se acreditasse mais apenas na força da palavra escrita. Como o caso do bebê de seis ou sete meses que caiu em uma torrente, depois que os remeiros desistiram de controlar o barco e buscaram a salvação nadando. Restituído à sua mãe, para festa universal.

Raguagglio, capítulos XXI a XXXI

sábado, 12 de dezembro de 2009

Sener, hom vos dis som voller

A inclusão do termo Deus em qualquer raciocínio leva aos paradoxos das infinitudes, que ainda hoje afligem tantas teorias físicas. Basta uma divisão por zero para arruinar toda um conjunto de equações; basta incluir a vontade de Deus em um argumento para tornar difícil uma conclusão moral. Deus, como lembra Segneri, é tão superior a nós em poder e em essência que sua posição de Juiz termina controversa. Condenar-nos seria prova do sumo jus, suma injúria - o exercício de um direito em excesso. Inocentar-nos, diante das culpas mais aberrantes, seria inviabilizar moralmente o mérito. O mistério do livre arbítrio, na verdade, nem se aplica nesse ponto; o problema é mais trivial: por que o infinito Deus haveria de julgar o pecador por comer um bolo a mais, por um adultério a mais?

Segneri fez aqui uma sugestão perigosa. Deus pode tudo, inclusive condenar o mais puro de nós e salvar o mais renitente pecador, diante de uma mínima penitência. Deus estaria interessado em nossos motivos e não em nossos atos. Nossa vida sexual não teria qualquer interesse moral para Deus a não ser por revelar nossos cálculos e nossas intenções, as mais íntimas. Ele estaria nos colocando, na verdade, diante do mesmo dilema que abateu Satanás: curve-se, mesmo diante do absurdo. Se, de fato, nos concedeu o livre arbítrio, Deus joga dados, ao contrário do que pensava um célebre cientista.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

quasi spiritualibus, sed quasi carnalibus

Considera maraviglia! Deus, Iddio, un Signori di tanta maestà, offeso, oltreggiato, da chi? da un'huomo, cioà, da un verme vilissiomo della terra, da un suo suddito, da un suo schiavo. E lhe dá, sem obrigação, por mero afeto, por mero amor: estímulo, tempo, ajuda. Quem poderia crer em tal coisa? Admirarias a bondade de Deus e deplorarias a retribuição bestial. Ah! se Deus punisse de imediato! Ah! se exigisse grandes sacrifícios para conceder o Paraíso! Vê como abusas da paciência divina. Sai che ella non è altro, che spazio di penitenza, locus poenitentiae. Tu la riconosci per tale? Compungiti, confonditi, umiliati, e guarda bene, perchè questo sarà it torto sommo, che farai a Dio, se abateris in superbiam.

(febbrajo xxi, Jó 24.23, Dedit ei Deus locum penitentiae...)

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A la fe Deu! pauc sap de plag

A conexão entre a obra religiosa e filosófica de Hindmarsh e as sugestões de Segneri sobre a cidade de cada um é certamente arbitrária, mas, ainda assim, sugestiva. Toda configuração é uma escolha e o conceito topológico chave, nesses casos, é a mera compactividade. É possível construir uma espaço compacto entre Segneri e Hindmarsh? Ou, por outra, tomando como suposta a compactividade, qual a topologia a ser descrita?

Nunca estive convencido de que as visões acadêmicas sobre a disciplina filosófica encerram o debate sobre a topologia do espírito. A ciência popperiana pode se dar ao luxo de uma descrição mais precisa de seus limites; o que chamamos de filosofia vai além disso e poderá encobrir fenômenos - como rituais ou a formação de discípulos - antes desconsiderados. Ellenberger, por exemplo, notou há tempos que o traço distintivo da psicanálise não é sua teoria da mente humana, partilhada com várias outras abordagens, mas sua insistência no controle estrito de seus praticantes. Em uma corrente política, esse controle faz um sentido, mas em uma disciplina espiritual, suas implicações são outras.

Essa abordagem não é original. Benjamin extraiu lições importantes do estudo de autores marginais do barroco alemão e mesmo Voltaire chamou atenção para objetos não convencionais, como o fanatismo. A escolha de Segneri como centro de uma análise filosófica do domínio espiritual oferece perspectivas topologicamente novas sobre o passado e sobre o futuro das coisas que são escritas.