terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Uma história do espírito

A conexão entre a obra religiosa e filosófica de Hindmarsh e as sugestões de Segneri sobre a cidade de cada um é certamente arbitrária, mas, ainda assim, sugestiva. Toda configuração é uma escolha e o conceito topológico chave, nesses casos, é a mera compactividade. É possível construir uma espaço compacto entre Segneri e Hindmarsh? Ou, por outra, tomando como suposta a compactividade, qual a topologia a ser descrita?

Nunca estive convencido de que as visões acadêmicas sobre a disciplina filosófica encerram o debate sobre a topologia do espírito. A ciência popperiana pode se dar ao luxo de uma descrição mais precisa de seus limites; o que chamamos de filosofia vai além disso e poderá encobrir fenômenos - como rituais ou a formação de discípulos - antes desconsiderados. Ellenberger, por exemplo, notou há tempos que o traço distintivo da psicanálise não é sua teoria da mente humana, partilhada com várias outras abordagens, mas sua insistência no controle estrito de seus praticantes. Em uma corrente política, esse controle faz um sentido, mas em uma disciplina espiritual, suas implicações são outras.

Essa abordagem não é original. Walter Benjamin já extraiu lições importantes do estudo de autores marginais do barroco alemão e mesmo Voltaire chamou atenção para objetos não convencionais, como o fanatismo. A escolha de Segneri como centro de uma análise filosófica do domínio espiritual oferece perspectivas topologicamente novas sobre o passado e sobre o futuro das coisas que são escritas.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Ben fes erras d'enamorat



A busca pela cidade celestial segue estranhos caminhos.Robert Hindmarsh (1759-1835), tecnicamente um discípulo do místico sueco Emanuel Swedenborg (1688-1772), foi o fundador do primeiro grupo de seguidores de suas doutrinas. Originalmente um pregador metodista, converteu-se ao ler Céu e Inferno e em 1783 publicou um anúncio de jornal promovendo um encontro de interessados em Swedenborg. O sucesso foi de tal ordem que em janeiro de 1788, seu primeiro sermão foi lido em uma capela alugada em Eastcheap, Londres.

A partir de 1790, Hindmarsh começou a publicar seu The New Magazine of Knowledge concerning Heaven and Hell, and the Universal World of Nature, misturando as doutrinas de Swedenborg com ocultismo e ciências naturais. Condenava, porém, a astrologia, a mágica e as artes divinatórias em geral. Reencarnação também era negada. Chefe da Society for Promoting the Heavenly Doctrines of the New Jerusalem, Hindmarsh adotou várias formulas do Metodismo para tornar suas doutrinas mais aceitáveis e, de fato, passou a contra com a colaboração da London Theosophical Society, outra organização swedenborgiana.

A comunidade religiosa prosperou ao longo do século XIX e missionários foram enviados aos Estados Unidos. A literatura básica sobre a nova Jerusalém é composta por Godwin, Joscelyn. The Theosophical Enlightenment. Albany: State University of New York Press, 1995; Hindmarsh, Robert. Rise and Progress of the New Jerusalem Church in England, America, and Other Parts…. Edited by Edward Madeley. London: Hodson & Son, 1861; e Sigstedt, Cyriel Odhner. The Swedenborg Epic: The Life and Work of Emanuel Swedenborg. London: The Swedenborg Society, 1981.

Imagem: Robert Hindmarsh. Rise and Progress of the New Jerusalem Church (1861).

sábado, 21 de novembro de 2009

Non habemus hic manenten civitatem

Considera, che questa misera terra non è altrimenti la Città sua permanente. La tua Città è il Paradiso. Como diferentes são tuas cidades: a presente e a futura. Considera como deves te comportar em uma terra onde és forasteiro: não te apegues. Vê como coisa que não te toca. Não és apenas forasteiro, ès peregrino. Que fazes quando passas em peregrinação? Não te ocupas de levar coisas, de andar carregado, levas apenas o necessário. Ma oimè: quanto procedi diversamente! Appena pensi mai al Paradiso: cattivo segno. Non dovrá dunque quella essere la tua Patria.

(febbrajo xx, Hebreus 13. 14)

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

en sa cambra per repousar

Prop. XXXVI. O amor intelectual de Deus é o amor com que Deus ama a si mesmo, não enquanto é infinito, mas enquanto ele pode ser explicado por meio da essência da mente humana considerada sob a espécie da eternidade; em outras palavras, o amor intelectual de Deus é parte do infinito amor com que ama a si mesmo.

Prova.- (1) Este amor deve ser relacionado às atividades da mente (V:xxxii.Coroll. and III:iii.); é ele mesmo uma atividade pela qual a mente vê a si mesma acompanhada pela idéia de Deus como causa (V:xxxii.&Coroll.); que é (I:xxv.Coroll. and II:xi.Coroll.) uma atividade por onde Deus, enquanto pode ser explicado pela mente humana, vê a si mesmo acompanhado pela idéia de si mesmo; portanto esse amor é parte do infinito amor com que Deus ama a si mesmo. Q.E.D.

Corolário - Daí segue-se que Deus, na medida em que ama a si mesmo, ama o homem e consequentemente o amor de Deus pelos homens e o amor intelectual de Deus são idênticos.

Bento de Spinoza, Ética, Livro 5.

Qui prodest homini, si mundun

Considera la differenza notabile, la qual passa tra 'l nostro amore e 'l Divino. Noi ci moviamo ad amare uno perch'egli è buono: Iddio si muove ad amarlo, non perchè é, mas perchè vuol fare buono. Deus é como um escultor que vê passar um tronco em uma corrente: não vê a madeira informe, mas a obra de arte que pode fazer. Assim como está em Jeremias 31. 3 (Há muito que o Senhor me apareceu dizendo: Pois que com Amor eterno te amei, também com amorável benignidade te atrai). É assim o Amor de Deus: não tem princípio na beleza, na doutrina, na riqueza, mas na caridade. É um Amor perpétuo e antigo como Deus. Desde que Ele é Deus, está enamorado de ti. Eternamente pensa em ti. Se tanto falas bem de um Príncipe - o que não deverias falar de Deus, que te amou desde antes do Mundo. Vê como sempre te ajudou a fazer o Bem, não respeitando a rebeldia de tua vontade, mas testando-a. Considera a infinita misericórdia: podia te abandonar e não o fez. Deves um dia ceder e trazer outros à salvação; pois ele não quer salvar apenas a ti, mas muitos. Perchè in qual forma ti poteva egli mostrare maggior affetto, che mentre ti ha salvato per renderti salvatore? Questa sí, ch'è stata un'eccelsa misericordia.

(febbrajo xix, Jeremias 31. 4)

sábado, 14 de novembro de 2009

No.us penses pas ses lums anes

Aproximando-se do fim do mês de fevereiro, as anotações de Segneri começam a perder em variedade. A citação implícita a uma estampa e a referência à Física do estagirita não escondem o recurso menos intenso à vida dos Santos e o uso da repetição de sinômicos como instrumento retórico. Segneri parece obcecado com a necessidade de defender a eternidade da punição infernal como a retribuição aos que se deixam seduzir pelos encantos desse mundo. Essa aridez ressalta uma indagação natural sobre a efetividade de seu texto e sobre a identidade de seu leitor.

Não seria certamente o camponês italiano, frequentador das missas espetaculares que oficiava no curso de suas missões. Não seria o público ilustrado urbano. Não há também qualquer esperança de posteridade em suas linhas. Talvez escrevesse para seus colegas predicadores, mas o Maná não funciona, ao menos até aqui, como um repositório de argumentos, nem possui a erudição necessária para impressionar jesuítas. Suas anotações, nem de longe, possuem o fogo de um sermão de Antônio Vieira.

O Maná talvez seja escrito para aqueles fiéis, funcionalmente alfabetizados, incluídos na cultura e no hábito do livro, e, assim, não queira convencer ninguém: apenas reforçar uma Fé preexistente. Considera, escreve ele sempre ao começar sua anotação. Suas repetições, sua falta de originalidade, sua ortodoxia sem maior sofisticação estariam plenamente justificadas: não quer convencer a quem não quer ser convencido.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

confortamini in Domino et in potentia virtutis eius.

Considera, quanto è vero, che mai non devi portar punto d'invidia alla prosperità de' Cattivi. Vivem alegres, mas por poucos anos. Quanta amargura continuamente engolem aqueles mesmos, que buscam satisfazer todos os seus desejos! Veja como terão de descontá-los. Pelo desafogo que deram à Soberba serão confinados no mais profundo báratro do Inferno, a estar eternamente escravos de Satanás; à Avareza, a permanecer terrivelmente pobres; à Luxúria, devorados por escorpiões e serpentes; à Ira, serão insultados para todo o sempre, à Gula, estar em perpétua fome, à Inveja, contemplar os que humilharam ou vitimaram; e à Preguiça, estarão sepultos em uma imobilidade terrível, exilados de Deus. Considera como essa transição será rápida, do trono à escravidão. A causa é o peso do Pecado, que logo os põe na ruína do Inferno antes de sentirem que estão a arruinar-se. Todas as coisas seguem ao Centro, sem necessidade de impulso extrínseco e assim vão as culpas prontamente a encontrar as penas. Tu che vuoi fare? Sarà dunque vero, che non ci sappi finire ancor di risolvere a porsi a salvo.

(febbrajo, xviii. Jó 21. 13 Ducunt in bonis dies suos )