sábado, 18 de fevereiro de 2012

omnibus operis tuis

(nota)

Se poi il divoto Lettore si dolesse

Os capítulos finais do Ragguaglio contêm algumas narrativas adicionais das penitências a que Segneri se submetia, entre elas ser açoitado enquanto amarrado a uma coluna, como Jesus, e queimado com a cera quente de velas. Era difícil, por vezes, arranjar quem o ajudasse em tais extremos.

O autor se pergunta, ao final, porque uma pessoa com tais méritos intelectuais e espirituais permaneceu praticamente desconhecida em seu tempo. É porque sempre os manteve em segredo enquanto viveu.

Ragguaglio, capítulos LXVI a LXVIII (fine).

domingo, 29 de janeiro de 2012

Catand in viata pacea, si 'n pace multumirea

Os paradoxos implicitos no julgamento moral de atos individuais encontram uma exposição canônica na Sura 18, A Gruta, quando Moisés interroga um dos Servos do Senhor:

"E encontraram-se com um dos Nossos servos, que havíamos agraciado com a Nossa misericórdia e iluminado com a Nossa ciência.
E Moisés lhe disse: Posso seguir-te, para que me ensines a verdade que te foi revelada?
Respondeu-lhe: Tu não serias capaz de ser paciente para estares comigo.
Como poderias ser paciente em relação ao que não compreendes?
Moisés disse: Se Deus quiser, achar-me-á paciente e não desobedecerei às tuas ordens.
Respondeu-lhe: Então segue-me e não me perguntes nada, até que eu te faça menção disso.
Então, ambos se puseram a andar, até embarcarem em um barco, que o desconhecido perfurou. Moisés lhe disse: perfuraste-o para afogar seus ocupantes? Sem dúvida que cometeste um ato insólito!
Retrucou-lhe: Não te disse que és demasiado impaciente para estares comigo?
Disse-lhe: Desculpa-me por me ter esquecido, mas não me imponhas uma condição demasiado difícil.
E ambos se puseram a andar, até que encontraram um jovem, o qual (o companheiro de Moisés) matou. Disse-lhe então Moisés: Acabas de matar um inocente, sem que tenha causado morte a ninguém! Eis que cometeste uma ação inusitada.
Retrucou-lhe: Não te disse que não poderás ser paciente comigo?
Moisés lhe disse: Se da próxima vez voltar a perguntar algo, então não permitas que te acompanhe, e me desculpe.
E ambos se puseram a andar, até que chegaram a uma cidade, onde pediram pousada aos seus moradores, os quais se negaram a hospedá-los. Nela, acharam um muro que estava a ponto de desmoronar e o desconhecido o restaurou. Moisés lhe disse então: Se quisesses, poderia exigir, recompensa por isso.
Disse-lhe: Aqui nós nos separamos; porém, antes, inteirar-te-ei da interpretação, porque tu és demasiado impaciente para isso:
Quanto ao barco, pertencia aos pobres pescadores do mar e achamos por bem avariá-lo, porque atrás dele vinha um rei que se apossava, pela força, de todas as embarcações.
Quanto ao jovem, seus pais eram fiéis e temíamos que os induzisse à transgressão e à incredulidade.
Quisemos que o seu Senhor os agraciasse, em troca, com outro puro e mais afetuoso.
E quanto ao muro, pertencia a dois jovens órfãos da cidade, debaixo do qual havia um tesouro seu. Seu pai era virtuoso e teu Senhor tencionou que alcançassem a puberdade, para que pudessem tirar o seu tesouro. Isso é do beneplácito de teu Senhor. Não o fiz por minha própria vontade. Eis a explicação daquilo em relação ao qual não foste paciente." (Sura 18, A Gruta, 65-82)

O texto do Corão não afirma diretamente quem seja o "nosso servo" mencionado no verso 65, mas os comentários não têm dúvida em identificá-lo com Al Khidr, o verde, uma figura espiritual do mundo pré-islâmico, um mensageiro de Deus, dotado de juventude eterna, incorporado posteriormente à tradição.(http://khidr.org/).


Satul de mari nimicuri ce nu dau fericirea

Comentário breve e cortante de Segneri. Os estudos sociológicos mostraram há décadas que os elementos fundamentais que constituem nosso destino, nossa língua, nossa família, nossa posição social e mesmo nossa saúde, são dados. Não os escolhemos, nem os conquistamos. É rara uma história de sucesso ou de fracasso que seja realmente pessoal em sua última raiz. A questão é o que você faz com o que lhe é dado.

Nesse ponto, Segneri toma parte em um problema tão paradoxal quando o problema do Mal: o problema do Bem. O bem que fazemos é realmente o bem? Se nossa existência é parte de uma cadeia incontrolável de eventos, tal como a representa o pensamento secular, não há como saber se o bem que fazemos hoje não será mal amanhã. Os atos humanos fazem parte de uma série infinita, cuja soma é desconhecida.

Segneri afirma que o Bem só pode estar baseado na Graça. Apenas Deus tem a ciência necessária das causas e dos eventos para definir o que é o Bem. O resto, fazemos no escuro, apenas com o melhor das intenções.




Quoy qu’en tout temps l’aumosne soit utile
Aux souffreteux, point ne faut de trompette
A l’annoncer, comme dit l’Evangile.
La charité de coeur vraye & parfaicte
Ne veut tesmoins de son oeuvre bien faicte.
Car il suffit que Dieu bien apperçoit,
Que l’indigent de ton bien a disette.
Le publiant son salaire reçoit.

Georgette de Montenay. Emblemas Cristãos (1584). 

cuius consummation in combustionem

Considera la differenza terribile, la qual passa fra Terra, e Terra; ambedue ricevono le stesse grazie dal Cielo, ma non ambedue corrispondono al modo stesso, e cosí una é benedetta, una reproba. O mesmo acontece com duas almas, ambas beneficiadas, mas não do mesmo modo gratas. Examina as duas, não há meio termo.

Nenhuma terra pode produzir sem água; assim é a alma humana. Não basta a vontade para fazer o bem; precisa da Graça. O Céu te envia muitos tipos de água: a inspiração interior, pluvia in vellus, as prédicas, os conselhos, os confortos, as correções, Tanto são elas abundantes. É ele que move a língua do predicador, do pároco, do confessor. E como hás reagido? Que bem hás feito? Se apenas espinhos produzes: que grande suplício te espera.

Considera como se fala desta Terra: a reprovação, a condenação e a punição. A pena para a terra fértil de ervas daninhas é o fogo. Là dove la ingrata lo muove a sospendere il socorso a tutti e a far che già non piovano sopra lei più acque, ma fimme.

(marzo xxvi... Terra saepe venienten super se... Hebreus. 6. 7)

sábado, 31 de dezembro de 2011

Oh che vergogna sara mai la mia

Nanti continua examinando em detalhe o comportamento de Segneri diante da consciência aguda de ser um pecador e das dúvidas sobre sua salvação. As penitências mais drásticas podem surpreender um leitor moderno, mas a narrativa é equilibrada e realista. Segneri estende-se, por exemplo, pelo que poderia ser descrito como fantasias de martírio, como o desejo de ser raptado e aprisionado por bandoleiros (um fato ordinário na Itália de então) ou ser capturado pelos turcos e feito escravo.

As menções aos cilícios e às flagelações rotineiras são compensadas pelo reconhecimento de que dormia as seis horas regulares e não tinha condições de manter um jejum prolongado. Certa vez, durante uma missão, deixou de comer e teve febre. Depois do episódio, manteve a escala regular de refeições, abstendo-se apenas de "pratos mais saborosos". Da mesma maneira, usava uma roupa rude, feita de pelo de cabra, quando em missões ou no seu trabalho diário da Ordem, mas quando foi forçado a viver em Roma, o calor do verão o levou a mudar sua vestimento. O hábito simples que usava, sem maior proteção, fazia-o padecer no inverno. Ele mesmo reconhecia sua sensibilidade ao frio.

Após seu falecimento, encontraram uma corrente de anéis de ferro aguçados com trinta e cinco palmos: com ela envolvia praticamente todo o seu corpo.


Raguagglio, capítulos LXII a LXV.



Cilício italiano do século XIX

Ca fantome de mari secoli pe eroi loru jelesc

Não se pode negar a Segneri um fino sentido de ironia, diretamente ligada à sua longa observação dos seres humanos. O amor de Deus, por exemplo, expresso na Encarnação, imediatamente põe em questão o amor dos Homens. Amar a Deus ou apreciar o amor de Deus pode ser problemático para muitos, mas esses mesmos muitos amam com facilidade um cavalo ou um cachorro. Ou um plátano.

O amor de Deus também revela uma estranha troca: que Deus tem a ganhar com o amor pelos Homens? Doar uma jóia, como ele escreve, não diminui a jóia; mas trocá-la por um pedaço de pão certamente a avilta. Deus, no entando, trocou seu Filho pelas almas dos Homens.

Como é possível entender o amor de Deus? Apenas os santos, no Paraíso, o compreendem, diz Segneri.