sábado, 31 de julho de 2010

an divitias bonitatis ejus

Considera quanto perniciosa ignoranza sia questa: non sapere perché Iddio tolleri tanto pazientemente nel tuo peccato. Pois que ignoras, não te corriges. Deus pode enviá-lo agora ao Inferno, mas espera. Não bastaria essa magnificência para comover teu coração? Como não tremes diante da possibilidade de que Ele te abandones e te entregue à Justiça Divina? A Bondade de Deus é infinita, mas tem um número finito e inescrutável para te tolerar. Quem sabe se ele não está computado? Uma coisa é a Misericordia como atributo, outra, como ato. Questi pur troppo hanno fine. Multae sunt miserationes ejus, così si dice; ma non così mai si dice infinitae sunt.

(marzo viii, ignoras quonian benignitas... Rom 2. 4)

domingo, 25 de julho de 2010

Numai relijiósa a candelei lumina


Renn Dickson Hampden. The Life of Thomas Aquinas. A Dissertation of the Scholastic Philosophy of the Middle Ages. London, Griffin, 1848, pág 25.

S'a stelelor de aur multime luminósa


A tentação de São Tomás (1338)
Bernado Daddi (c.1280-1348)


A tentação de São Tomás (1632)
Diego Velázquez (c.1599-1660)

Entre a tela de Daddi e a de Velázquez, 300 anos e notável evolução iconográfica. Na tela medieval, apenas os dois anjos da legenda e uma mulher, vestida, cuja única indicação sobre sua posição no quadro é a falta de uma auréola. São Tomás busca apenas a proteção da Cruz. Em Velázquez, a descrição completa do episódio. Os livros com que estudava, o tição com que afastara a mulher enviada pelos irmãos, o curativo que lhe fazem os anjos. Em dupla, por sinal, como na tela de Daddi. Velázquez também não se arrisca a incluir uma mulher nua no mesmo cômodo em que está São Tomás. Estudo ou mulheres? Um dilema que jamais afetou outro santo, Agostinho.

Mulier enim statim ut audivit eo

Considera, la differenza, che passa tra la Sapienza divina, di cui quì si ragiona, e tra la Prudenza ambedue per altro unitissime, come quelle que sono due d'un istesso Spirito Santo. A sabedoria nos faz conhecer o último fim, que é Deus; a Prudência nos guia a esse fim. A Sabedoria deve ser tua esposa; a Prudência, tua amiga. A Sabedoria luta contra tua Sensualidade; a Prudência, contra tua Humanidade, sempre pronta a dizer que a salvação exige um sacrifício mínimo. Vê o caso de São Tomás e a mulher: o quanto exige a santidade em Sabedoria e Prudência. Sapienza per tener sempre vivissima nella mente la cognizione del tuo ultimo fine, per aderire a lui con fortezza; Prudenza per fuggire le occasione pericolose, ó per isbrigartene quando esse vengono contro tua voglia a trovarti.

(marzo vii, Dic Sapientiae; soror mea es..., Provérbios 7, 4)

domingo, 27 de junho de 2010

Încerce acum sórta sa'mi crasca suferira

Uma vez mais, é digna de nota a sensibilidade de Segneri ao problema sociológico da fé. Sua meditação trata mais diretamente da necessidade do sacrifício a Deus, mas, de forma sutil, enfatiza que tal sacrifício é de tanto maior valor quanto maior é a posição social de quem se sacrifica. Instintivamente percebe o que a sociologia inglesa dos anos 1970, em desafio à visão convencional do marxismo, afirmava sobre o real alvo da ideologia. O objeto do trabalho ideológico mais sofisticado não podem ser os oprimidos, que mal têm condições de compreender seu próprio mundo, mas as elites, no sentido amplo do termo. São as elites que dispõe do conhecimento e do poder social para a manutenção da ordem e precisam acreditar em tal ordem. Quando as elites desertam, é um claro sinal do fim - uma constatação válida seja para a religião organizada, seja para o socialismo real.

Segneri, aliás, também não se limita a um lamento crepuscular sobre o abandono da fé pelos ricos e poderosos de seu tempo. Responde ironicamente à argumentação de que o sacrifício a Deus é penoso. O hedonismo (o de então e o de agora) apenas substitui uma submissão por outra. O que é melhor, pergunta, sacrificar-se a Deus e ao próximo ou sacrificar-se ao ventre e ao dinheiro? É inevitável lembrar a linha de Paulo: que adianta ao Homem ganhar o Mundo se perder sua Alma?

Obsecro vos per misericordia

Considera, che pietà grande sia questa: vedere alcuni, i quali potrebbono fare a Dio de lor corpi un sagrifizio belissimo, e tuttavia non conoscono la lor sorte. Jovens e ricos, que vítimas seriam para Deus! E no entanto, se rendem ao Mundo. Fazem, no máximo, um sacrifício ordinário, não nobre. Três coisas fazem o sacrifício: a Vítima, a Oblação e a Ocisão. Metafórico, mas sacrifício. Pensas em manter o teu corpo e não oferecê-lo em sacrifício. Três são os modos de oferecer sacrifício: 1. padecer pelo culto do Senhor; 2. penitenciar-te como réu diante de Deus; 3. as fadigas no serviço do próximo. A que Deus, afinal, sacrificas teu corpo: o ventre? O dinheiro? Queremos que sejas vítima, mas vítima santa e não imunda. Queremos que seja vítima, mas vítima razoável, não como um boi ou uma cabra. Ma chi non sa che'l fine, solo è quello c'ha da volersi senza misura, siccome vogliono gl'infermi la sanità? Il mezzo si ha da volere fino a quel segno, che sia giovevole al fine, siccome vogliono parimente gl'infermi la medicina.

(marzo vi, Obsecro vos per misericordia Dei..., Romanos 12.1)

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Panorama de umbre, se 'ntunec se estrecor


"Tormento do ver", gravura incluída em La Prigione Eterna dell’Inferno. Disegnata in immagini et espresso in Essempij al peccatore duro di cuore, de Giovanni Battista Mannini, S.J.,Veneza, 1666.

Especulação que se foi gastando com o tempo, essa do Inferno. Com essa frase, Jorge Luís Borges começa um dos exames mais devastadores dessa venerável instituição teológica. No ensaio "A duração do inferno", publicado em Discussão (1932), ele faz a observação decisiva: é indiscutível um cansaço geral na propaganda desse estabelecimento. A eternidade do Inferno, citando Rothe, seria a eternidade do Mal - um fato dificilmente compatível com a bondade de Deus. Curiosamente, uma das fontes de despretígio do Corão no Ocidente não era seu convencional Inferno, mas seu Paraíso sexual.

Mais interessante, creio eu, do que o gradual desgaste do Inferno, patente ainda em meados do século XIX, é o entusiasmo dos escritores jesuítas com seu uso moral e, portanto, com as descrições detalhadas do estabelecimento. Mesmo Segneri não se furta a reflexões de ordem física sobre a natureza exata do fogo eterno e como compatibilizar a idéia de fogo com a ausência de luz no Inferno. Mesmo a fauna do inferno, composta por insetos repelentes e feras selvagens, é recorrentemente enfatizada. Parece-me inevitável supor que o avanço do conhecimento científico sobre a biologia dos seres vivos e sobre os fenômenos físicos em muito contribuiu para o ceticismo quanto a este Inferno descrito com tanta precisão.

Ao insistir do uso de fenômenos e seres vivos para compor a imagem do Inferno, os autores jesuítas estavam abrindo caminho, na verdade, para sua inverosimelhança futura. Se tivessem enfatizado a natureza moral do castigo imposto por Deus e preferido uma forma literária mais imprecisa, talvez o Inferno tivesse atravessado os séculos em melhor forma. Nos dias que vão, o Vaticano tem grande cuidado quando descreve o Inferno e revela um evidente temor do deboche da mídia.

No fundo, os jesuítas, com sua preocupação constante com a propaganda da fé, terminaram comentendo um erro comum em matéria de marketing e opinião pública. Ficaram presos à visão de apenas um público; quando este desapareceu, o Inferno não estava apenas condenado, estava obsoleto como um telégrafo ou uma máquina de escrever. Como bem notou Borges, foi possível a Baudelaire ansiar pelo Inferno e iniciar uma tradição da arte popular do século XX. Qualquer "conjunto de rock", quando quer elevar as vendas, flerta com o Inferno. Mais uma culpa da ordem de São Inácio.