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domingo, 28 de abril de 2013

La care cum s'aude destul ai conlucrat


Nos anos triunfantes das políticas liberais, o discurso de Gordon Gekko em uma assembléia de acionistas, no filme Wall Street (1987), tornou-se um dos símbolos daquilo que não se queria então reconhecer como a ordem moral dos tempos: "a cobiça é boa". A sugestão original, naturalmente, é pouco posterior a Segneri, feita por iluministas escoceses no século XVIII.

O curioso, entretanto, é que a aberta confissão de cobiça não resistiu, no cinema ou na arena pública, nem a um quarto de século. Dois anos depois do início da primeira crise financeira do milênio, em 2010, o mesmo personagem retorna à cena para combater o demônio da cobiça no sucessor "O Dinheiro nunca Dorme".


Nesses mesmos anos, por sinal, prosperavam as ideias sobre a responsabilidade social das empresas, frequentemente usadas como instrumento de protecionismo, mas nem por isso menos sintomáticas do fato mencionado por Segneri: não reconheces a cobiça, mesmo escondida sobre a terra?

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A copilei dulce frunte cu vii umbre colora

Nenhuma ideia moderna parece mais hostil às religiões tradicionais do que a autonomia individual. Nascida da reforma protestante, teve logo uma tradução política e, posteriormente, existencial. Segneri não foi o primeiro a notar que a autonomia individual pode levar à inconstância, à frivolidade e ao sofrimento pessoal, mas registra corretamente que a única saída possível para a autonomia individual é aceitar, na graduação mais conveniente, uma orientação espiritual externa. Boa parte dos seres humanos demanda um guia.

Mesmo essa ponderação, contudo, soa ofensiva a ouvidos contemporâneos. Quem aceitaria, publicamente, seguir a orientação de outrem? A submissão intelectual ou volitiva tem inegável valência negativa, apesar da proliferação de literatura de auto-ajuda, inclusive financeira.

O mais curioso é que, no plano espiritual, a perda de prestígio das formas tradicionais de liderança foi logo compensada pela emergência de outras modalidades, talvez mais coloridas. Nenhuma delas é mais significativa no Ocidente do que o culto do guru, importado, a partir dos anos 1960, das religiões indianas. As causas alegadas do fenômeno vão desde o multiculturalismo ao declínio dos valores ocidentais, mas sua manifestação não perde o sabor paradoxal. Um indivíduo ocidental a quem repugnaria o rito da confissão católica pode adotar, sem maiores escrúpulos, rituais e mitologias radicalmente estrangeiros. Sob uma nova identidade, talvez, o guia espiritual pareça menos opressivo.

Na verdade, a busca pelos mais variados tipos de guia espiritual vem tornando-se mais intensa sob o reino da autonomia individual, um fato que não surpreenderia Segneri. Os conteúdos variam, como mostra o recente New Religions in a Post Modern World (2002), de Render Kranenborg e Mikael Rothstein, de maneiras quase bizarras, mas o desejo de uma orientação espiritual que alivie o peso da autonomia individual permanece.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Acopere totul, crede totul, nădăjduieşte totul, sufere totul

A bela figura retórica empregada por Segneri para descrever a paz alcançada pelos justos, sustentada por negativas, é uma referência clara à celebre passagem da primeira Epístola aos Coríntios (13, 4), quando Paulo define a natureza do amor (ágape):


"4.O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não se vangloria, não se ensoberbece,
5 não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal;
6 não se regozija com a injustiça, mas se regozija com a verdade;
7 tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta."

Tal encômio do amor, contudo, não foi uma invenção do apóstolo: representa uma figura literária conhecida na cultura grega. Tem um igualmente célebre antecessor, exposto nas seções 203c e ss do diálogo platônico "O Banquete". Como é sabido, o amor (eros) é assim descrito:

"E por ser filho o Amor de Recurso e de Pobreza foi esta a
condição em que ele ficou. Primeiramente ele é sempre pobre, e
longe está de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas
é duro, seco, descalço e sem lar, sempre por terra e sem forro,
deitando-se ao desabrigo, às portas e nos caminhos, porque
tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão.
Segundo o pai, porém, ele é insidioso com o que é belo e bom,
e corajoso, decidido e enérgico, caçador terrível, sempre a tecer
maquinações, ávido de sabedoria e cheio ele recursos, a
filosofar por toda a vida, terrível mago, feiticeiro, sofista: e nem
imortal é a sua natureza nem mortal, e no mesmo dia ora ele
germina e vive, quando enriquece; ora morre e de novo
ressuscita, graças à natureza do pai; e o que consegue sempre
lhe escapa, de modo que  nem empobrece o Amor nem
enriquece, assim como também está no meio da sabedoria e da
ignorância."

domingo, 26 de fevereiro de 2012

El singur sa'mi stea fata in acele minute

O caráter espiritual da concentração da mente nas mínimas ações que cada um pratica em sua vida cotidiana ou em seu ofício cotidiano é hoje uma figura retórica comum. Ela se espalha pelas literaturas de auto-ajuda modernas, mas avança também sobre as descrições populares das religiões orientais. Em Segneri, naturalmente, o sentido é bem mais preciso: esta concentração é necessária para realizar a intenção pura e para invocar corretamente a ajuda divina. De forma sutil, ele insinua que cada gesto pode se transformar em um ritual.

O efeito terapêutico e salvador desta concentração pode revelar-se em ocasiões surpreendentes. Em sua obra pungente sobre o Gulag soviético, Anne Applebaum descreve como a capacidade pessoal de isolar-se, por meio de tarefas comuns, do horror do trabalho forçado e da injustiça contribuía para a sobrevivência de muitos prisioneiros.

Escrever poesia, fabricar colheres ou agulhas para os que precisavam, meramente dedicar-se a ouvir um amigo, lavar ritualmente as próprias roupas, manter a rotina de tomar banho foram recursos empregados para, de alguma maneira, preservar a dignidade interior (Gulag. A History, 2003, págs 346-347). Mesmo uma celebração mínima do ritual da Páscoa Ortodoxa atraía crentes e ateus.

Na mera atenção ao que fazemos, argumenta Segneri, está a salvação.





domingo, 29 de janeiro de 2012

Catand in viata pacea, si 'n pace multumirea

Os paradoxos implicitos no julgamento moral de atos individuais encontram uma exposição canônica na Sura 18, A Gruta, quando Moisés interroga um dos Servos do Senhor:

"E encontraram-se com um dos Nossos servos, que havíamos agraciado com a Nossa misericórdia e iluminado com a Nossa ciência.
E Moisés lhe disse: Posso seguir-te, para que me ensines a verdade que te foi revelada?
Respondeu-lhe: Tu não serias capaz de ser paciente para estares comigo.
Como poderias ser paciente em relação ao que não compreendes?
Moisés disse: Se Deus quiser, achar-me-á paciente e não desobedecerei às tuas ordens.
Respondeu-lhe: Então segue-me e não me perguntes nada, até que eu te faça menção disso.
Então, ambos se puseram a andar, até embarcarem em um barco, que o desconhecido perfurou. Moisés lhe disse: perfuraste-o para afogar seus ocupantes? Sem dúvida que cometeste um ato insólito!
Retrucou-lhe: Não te disse que és demasiado impaciente para estares comigo?
Disse-lhe: Desculpa-me por me ter esquecido, mas não me imponhas uma condição demasiado difícil.
E ambos se puseram a andar, até que encontraram um jovem, o qual (o companheiro de Moisés) matou. Disse-lhe então Moisés: Acabas de matar um inocente, sem que tenha causado morte a ninguém! Eis que cometeste uma ação inusitada.
Retrucou-lhe: Não te disse que não poderás ser paciente comigo?
Moisés lhe disse: Se da próxima vez voltar a perguntar algo, então não permitas que te acompanhe, e me desculpe.
E ambos se puseram a andar, até que chegaram a uma cidade, onde pediram pousada aos seus moradores, os quais se negaram a hospedá-los. Nela, acharam um muro que estava a ponto de desmoronar e o desconhecido o restaurou. Moisés lhe disse então: Se quisesses, poderia exigir, recompensa por isso.
Disse-lhe: Aqui nós nos separamos; porém, antes, inteirar-te-ei da interpretação, porque tu és demasiado impaciente para isso:
Quanto ao barco, pertencia aos pobres pescadores do mar e achamos por bem avariá-lo, porque atrás dele vinha um rei que se apossava, pela força, de todas as embarcações.
Quanto ao jovem, seus pais eram fiéis e temíamos que os induzisse à transgressão e à incredulidade.
Quisemos que o seu Senhor os agraciasse, em troca, com outro puro e mais afetuoso.
E quanto ao muro, pertencia a dois jovens órfãos da cidade, debaixo do qual havia um tesouro seu. Seu pai era virtuoso e teu Senhor tencionou que alcançassem a puberdade, para que pudessem tirar o seu tesouro. Isso é do beneplácito de teu Senhor. Não o fiz por minha própria vontade. Eis a explicação daquilo em relação ao qual não foste paciente." (Sura 18, A Gruta, 65-82)

O texto do Corão não afirma diretamente quem seja o "nosso servo" mencionado no verso 65, mas os comentários não têm dúvida em identificá-lo com Al Khidr, o verde, uma figura espiritual do mundo pré-islâmico, um mensageiro de Deus, dotado de juventude eterna, incorporado posteriormente à tradição.(http://khidr.org/).


Satul de mari nimicuri ce nu dau fericirea

Comentário breve e cortante de Segneri. Os estudos sociológicos mostraram há décadas que os elementos fundamentais que constituem nosso destino, nossa língua, nossa família, nossa posição social e mesmo nossa saúde, são dados. Não os escolhemos, nem os conquistamos. É rara uma história de sucesso ou de fracasso que seja realmente pessoal em sua última raiz. A questão é o que você faz com o que lhe é dado.

Nesse ponto, Segneri toma parte em um problema tão paradoxal quando o problema do Mal: o problema do Bem. O bem que fazemos é realmente o bem? Se nossa existência é parte de uma cadeia incontrolável de eventos, tal como a representa o pensamento secular, não há como saber se o bem que fazemos hoje não será mal amanhã. Os atos humanos fazem parte de uma série infinita, cuja soma é desconhecida.

Segneri afirma que o Bem só pode estar baseado na Graça. Apenas Deus tem a ciência necessária das causas e dos eventos para definir o que é o Bem. O resto, fazemos no escuro, apenas com o melhor das intenções.




Quoy qu’en tout temps l’aumosne soit utile
Aux souffreteux, point ne faut de trompette
A l’annoncer, comme dit l’Evangile.
La charité de coeur vraye & parfaicte
Ne veut tesmoins de son oeuvre bien faicte.
Car il suffit que Dieu bien apperçoit,
Que l’indigent de ton bien a disette.
Le publiant son salaire reçoit.

Georgette de Montenay. Emblemas Cristãos (1584). 

sábado, 31 de dezembro de 2011

Ca fantome de mari secoli pe eroi loru jelesc

Não se pode negar a Segneri um fino sentido de ironia, diretamente ligada à sua longa observação dos seres humanos. O amor de Deus, por exemplo, expresso na Encarnação, imediatamente põe em questão o amor dos Homens. Amar a Deus ou apreciar o amor de Deus pode ser problemático para muitos, mas esses mesmos muitos amam com facilidade um cavalo ou um cachorro. Ou um plátano.

O amor de Deus também revela uma estranha troca: que Deus tem a ganhar com o amor pelos Homens? Doar uma jóia, como ele escreve, não diminui a jóia; mas trocá-la por um pedaço de pão certamente a avilta. Deus, no entando, trocou seu Filho pelas almas dos Homens.

Como é possível entender o amor de Deus? Apenas os santos, no Paraíso, o compreendem, diz Segneri.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Fii vostri vor ascunde a lor frunte in terina

Sobre Romanos 8.17, o trecho comentado por Segneri no século XVII, escreveu Karl Barth no século XX:

"Nossa humana presente existência - ela mesma não eterna, mas trazendo em si a eternidade não nascida - é encoberta pelo sofrimento, como um manto escuro, por uma espada desembainhada, por uma parede alta. Em si mesma, nossa vida é contestável; não há nela repouso, pois, sendo finita, é definida e constituída pela ambiguidade. Nossas experiências das limitações temporais de nossa existência, do estreito vazio de nossos poderes, das grandes e pequenas tribulações que, como fragmentos da Terra, devemos suportar em dor, são apenas sombras de nossa finitude. O que cedo ou tarde encontraremos como barreira final é a Dor em nossa dor. Não devemos permanecer em ignorância que a este ponto Deus dirige Sua questão a nós e que para ele também Ele prepara a Sua resposta. No Espírito, o segredo de Deus não pode ser escondido. No Espírito, podemos perceber o sentido de nossa vida, manifestado como sofrimento. No Espírito, sofrimento, suportado e aceito, pode se tornar nosso avanço em direção à glória de Deus. Esta revelação do segredo, esta compreensão de Deus no sofrimento é a ação de Deus em nós. Tal compreensão é o testemunho do Espírito, pelo qual é permitido à Verdade ser a Verdade e também a garantia de que somos filhos de Deus e, como tais, herdeiros de sua glória." (Epístola aos Romanos, OUP, 1968, pág 301)

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Dar Rumani nu vor pacea

Lê-se na internet que, dentre os artefatos produzidos pelo homem e preservados pela História, os mais numerosos são os potes de maquiagem do antigo Egito. Milhões jazem espalhados como lixo pelos desertos em torno do rio Nilo, um mudo testemunho da vaidade e também da indústria humana. O prestígio dessa atividade é tamanho que recentemente fabricantes franceses de cosméticos buscaram recuperar suas técnicas e seus desenhos.

O esforço de tornar eterno o efêmero esbarrou, contudo, em realidades mais prosaicas: boa parte das substâncias cosméticas usadas no antigo Egito provocam sérias intoxicações por metais ou irritações cutâneas intoleráveis para os padrões sanitários modernos.

Este é apenas um exemplo da observação precisa de Segneri, baseada em um texto célebre do Evangelho. Adorar as coisas desse mundo, para o homem, é, na verdade, adorar as coisas de apenas um século, talvez menos. Os padrões de beleza, de consumo, de luxo, de ostentação mudam constantemente. O Biltmore Estate, na Carolina do Norte, foi construído como exibição de fortuna privada, passou a museu e está reduzido a um hotel. As ilusões amadas pelos homens de um século são irreconhecíveis para os homens de outro século. Cigarros já foram considerados sinal de riqueza e sofisticação. Amar as coisas desse mundo é amar coisas que estão condenadas à morte ou ao ridículo.

A eternidade tão ambicionada pelos homens, a extensão ou o sentimento da extensão temporal, pode ser apenas sugerida pelas coisas que são eternas, como Deus. Um contemporâneo de Segneri escreveu, no último livro de sua obra sobre ética, que o amor intelectual de Deus é eterno e mais: "do terceiro gênero de conhecimento necessariamente surge o amor de Deus. Deste tipo de conhecimento nasce o prazer acompanhado pela idéia de Deus como causa, ou seja, o amor de Deus; não enquanto o imaginamos presente, mas enquanto o entendemos como eterno".




Representação contemporânea da maquiagem egípcia.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Eu me opriiu pe valea bogata in morminte

A sofisticação psicológica das notas de Segneri só podem ser explicadas por sua longa e calculada observação do comportamento humano. A atitude de seu "peregrino", sempre andando na beira do abismo, mesmo quando conhece a dimensão do abismo, por muitas décadas foi compreendida em termos morais ou atribuída a forças ocultas. Apenas recentemente seu caráter obsessivo recebeu uma descrição científica sob o conceito de comportamento de risco. Note-se que não se trata, aqui, de um obsessão induzida por razões diretamente patológicas; o comportamento de risco é mantido mesmo quando a mente, racionalmente, reconhece os perigos nele implicados.

A preocupação contemporânea com o fenômeno teve sua origem, naturalmente, na epidemia de HIV/AIDS. Sem cura ou tratamento eficaz por muitos anos, a transmissão da enfermidade não ocorria, geralmente, por atos e eventos independentes da vontade da pessoa contaminada. Como os valores modernos não podem aceitar, por conta de seu iluminismo otimista, que a prática sexual seja induzida diretamente por fatores que estão além da vontade individual, restava admitir que a consciência humana, mesmo posta diante de um risco evidente, preferia andar à beira da precipício, tal como o "peregrino" de Segneri.

Hoje, contudo, esforços crescentes de engenharia social levaram o conceito de comportamento de risco muito além do campo sexual. Práticas alimentares de crianças, hábitos sexuais de adolescentes, vícios adultos, reações ao estresse ou mesmo o suicídio de militares são estudados sob a perspectiva do comportamento de risco.

Uma rápida análise dessa literatura psicológica mostra, contudo, um beco sem saída. Como os seres humanos modernos, por definição, são sempre bons e racionais, a única explicação para um comportamento de risco precisa ser externa. Sendo externa, ela limita o livre arbítrio do sujeito e, por decorrência, a própria idéia de um comportamento que deliberadamente assume riscos.

Segneri não sofre com esses dilemas. O problema é a fraqueza humana, incapaz de caminhar mesmo em uma estrada plana.


"Te lleva tu alvedrio a unión con Dios o con el bruto impio"


Juan de Rojas. Representaciones de la Verdad Vestida, Mysticas, Morales y Alegoricas sobre las Siete Moradas de Santa Teresa de Jesus, Gloria del Carmelo, y Maestra de las Primitiva Observancia. Madrid, 1679. Terceras Moradas.

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

D'o rece sudóre eram inundat

Regra de São Benedito, "Sobre o trabalho do dia":


A preguiça é a inimiga da alma; assim os irmãos devem trabalhar com as mãos durante certo tempo, em outros, ocupar-se com leituras devotas. O tempo para trabalho e leitura deve ser propriamente ordenado. Da Páscoa às calendas de outubro, devem sair para o trabalho da primeira à quarta hora, mas da quarta à sexta devem ler. Depois da sexta hora, quando se levantarem da mesa, deixe que descansem e seus leitos em completo silêncio. Se ninguém quiser ler para si mesmo, deixe que leiam sem perturbar os demais. Depois do meio da oitava hora trabalhe-se até as Vésperas.

Se a necessidade do lugar ou a pobreza exigirem que eles mesmos façam a colheita, não deixe que se entristeçam, pois então eles serão monges em verdade se vivem pelo trabalho de suas mãos, como fizeram nossos antepassados e os Apóstolos. Embora, em favor dos fracos de coração, deixe que as coisas sejam feitas com moderação.

Das calendas de outubro até o início da Quaresma, deixe que leiam até completar-se a segunda hora. Será então lido o terço e todos trabalharão até a nona hora. Quando for dado o primeiro sinal da nona hora, devem deixar o trabalho e estar prontos para o segundo sinal. Após a refeição, deixa que leiam os salmos.

Durante a estação da Quaresma, leiam pela manhã até a quinta hora e até a décima hora trabalharão como foi imposto. Nesses dias, receberão livros da biblioteca e deixe que leiam em ordem. Estes livros serão dados no início da estação da Quaresma.

Acima de tudo, faz com que um ou dois dentre os mais velhos sejam indicados para andar pelo monastério e vejam que os irmãos se dediquem à leitura devota, pois um irmão ocioso pode ser encontrado sem nada fazer, sem atender à leitura, o que não aproveita para si mesmo e perturba os demais. Se algum desses for encontrado (Deus proíba) seja ele punido uma vez e de novo. Se não se corrige, seja punido pela Regra de modo que os demais temam. Não deixa que um irmão se junte a um irmão fora da ocasião determinada.

Nos domingos, deixa que todos se devotem à leitura, a não ser aqueles que têm tarefas. Se algum for tão sem cuidado e preguiçoso que não medite nem leia, algum trabalho lhe seja dado para que não fique à toa.

Um emprego seja dado aos fracos e enfermos para que não estejam ociosos, mas sem que sejam carregados com esforço e recusem. Sua fraqueza será levada em conta pelo abade."

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Ora et labora

No antigo calendário dos santos, o dia 21 de março estava reservado a São Benedito (480-547), o fundador do peculiar monasticismo do Ocidente. Após duzentos anos de revolução industrial e de estado laico, monges e conventos parecem irreversivelmente tisnados, um e outro, como fanáticos e como antros de fanáticos religiosos, imprestáveis para a sociedade e hostis ao convívio entre os homens. Uma leitura mais atenta da biografia de São Benedito (cujo primeiro exemplar é atribuído a São Gregório Magno e escrita em 593) e dos primeiros séculos do monasticismo ocidental não justificaria, contudo, tal repulsa. O recolhimento diante da vulgaridade do mundo, por exemplo, não pode mais ser considerado um gesto estranho e inopinado: basta meia hora de exposição à mídia popular para que uma discreta vontade de se refugiar no campo se instale.

Muitos dirão que se trata de uma rejeição à liberdade de expressão, mas este argumento é falacioso, pois supõe que a mídia popular seja um puro evento de opinião. Não é. É uma operação de venda, são campanhas de propaganda e não é por acaso que a publicidade seja a responsável direta pela maioria dos movimentos em favor da liberdade de expressão. Para evitar a exposição a um ridículo desagradável, a melhor alternativa pode ser mesmo evitar a televisão ou recolher-se a um local fora do alcance dos jogos de gladiadores, dos mercados de escravos, da corrupção, etc. Tal como fez Benedito naqueles anos de barbárie.

Também não se nota com o devido rigor que a regra de Benedito inclui o trabalho, objeto de desprezo sob o escravismo antigo, cujo produto reverteria para os próprios homens recolhidos. Ao contrário do que sugerem as fantasias tardias do capitalismo, o monge, originalmente, não era um vagabundo. Podia não ser um empresário inovador, mas também não era um proletário. Ao contrário do monge do Oriente, um parasita sustentado pelas comunidades, o monge beneditino produzia riqueza e, talvez, riqueza demais.

Para o Estado, sempre sedento de impostos e de poder, aqueles homens recolhidos, que pouco se importavam com as mitologias seculares, orando e trabalhando, ilustrados por uma ideologia consistente, eram uma ameaça palpável. Como controlaremos a populaça por meio do pão e do circo, se perguntavam os governantes, se estes homens têm o seu próprio pão e não se interessam pelo circo? Se não têm a menor intenção de pagar o preço da proteção a uma máfia governamental?

O monasticismo ocidental, na verdade, impõe uma fronteira perigosa para as palavras de Jesus sobre o que é de César. Por fim, como justificar aos olhos dos homens as fraquezas e ambiguidades da política matrimonial e sexual dos monarcas quando havia o termo de comparação com poder sem sexo dos conventos e monastérios? O governo, ontem, hoje e sempre, é o inimigo número um dos homens que se recolhem. Estes sabem produzir seu próprio pão, não acreditam em paraísos terrestres e rejeitam a vulgaridade patética dos príncipes.

No Ocidente, Felipe, o Belo, rei de França, ganhou essa batalha: crucificou e queimou os monges guerreiros. Nada havia, contudo, de fatal nessa vitória, nem ela supera a força dos que se retiram, oram e laboram.

Tiziano. Cavaleiro da Ordem de Malta. (c.1510)

domingo, 25 de setembro de 2011

Asculta-me, sfântu preotu; asculta-me parinte

A posição alcançada pelo consumo de bens materiais na sua escala de valores talvez ofereça o contraste mais dramático entre a modernidade e os sistemas éticos e religiosos do passado. Desde 1953, o consumo nunca representou menos do que 60% da economia dos Estados Unidos da América e na década atual aproxima-se do patamar de 70%. Tão ubíqua é a presença do consumo na vida social que maiores gastos com publicidade nem são necessários. Ainda nos Estados Unidos, eles têm se mantido estáveis, como propoção do produtor interno bruto, desde o início do século XX (http://www.galbithink.org/ad-spending.htm). É desnecessário notar aqui os aspectos grotescos de uma sociedade que funciona sob tal imperativo. A cada ano, por exemplo, milhões de animais domésticos são abandonados e sacrificados, uma vez que deixam de cumprir suas funções emocionais e estéticas.

Por sua vez, a idéia (e o sentimento) de um balanço mais equilibrado entre a busca de bens materiais e espirituais não decorre inexoravelmente de um marco confessional. Desde a década de 1990, vários movimentos de repulsa ao consumismo e ao estiolo de vida moderno vêm se organizando a partir do chamado Downshifting Manifesto. Parte do movimento Verde, seu objeto específico é reduzir a relação das pessoas com o consumismo de massa (http://downshiftingweek.com/sitebuildercontent/sitebuilderfiles/DownshiftingManifesto2008.doc).

Não se trata de um movimento contra a civilização industrial: "uma pessoal frugal não é uma pessoa pobre". O objetivo é utilizar as facilidades da civilização industrial para viver melhor, em busca de outros propósitos na vida (http://www.thedownshifter.co.uk/frugality.html). Reduzir os "afãs e ansiedade", como sugere Segneri. Descobrir o próprio bem exige estudo.



quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Imi va resplati vécure trecute cu amar

O comentário do dia 20 de março é sobre a espera; o santo do dia, nos tempos de Segneri, é São Joaquim, esposo de Santa Ana, pai de Maria, avô de Jesus. Nas gerações, portanto, um símbolo dessa espera; da graça, ainda distante, que se aproxima.

Joaquim e Ana não são mencionados pelos Evangelhos. Os fatos da tradição vêm do chamado Proto Evangelho de Tiago, um texto atribuído ao ano 145, e espelham, em boa medida, a história de Abraão e Sara. Um casal sem filhos até a velhice, quando o Senhor lhes concede a graça do nascimento de Maria. Os episódios da vida de Joaquim e Ana, assim como da criação da Maria, tiveram lugar de destaque nas tradições e na arte cristãs até que a Contra-Reforma, no século XVI, limitou a citação dos textos considerados apócrifos. Após o século XVIII, mesmo a posição de São Joaquim no calendário dos santos foi alterada.

Seja como for, a influência desta tradição é tão expressiva que encontrou seu caminho mesmo no Corão, cuja terceira sura recebe o nome de Joaquim (Imran) e estabelece a base para o culto de Maria no Islã. O verso 37 cita diretamente um episódio do capítulo 8 do Proto Evangelho de Tiago, quando Maria, sozinha no Templo, recebe o alimento de um anjo:

“Seu Senhor a aceitou benevolentemente e a educou esmeradamente, confiando-a a Zacarias. Cada vez que Zacarias a visitava, no oratório, encontrava-a provida de alimentos, e lhe perguntava: Ó Maria, de onde te vem isso? Ela respondia: de Deus!, porque Deus agracia imensuravelmente quem Lhe apraz.” (3:37)


quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Deseversita eu o vedeam

Notável a definição estabelecida por Segneri para a santidade. Não se trata apenas, sugere ele, de um assunto eclesiástico; também não se prende ao elenco de fatos espantosos ou miraculosos habitualmente descritos pelas vidas dos santos. Sua definição é existencial: a vida do santo é uma espera. Uma forma especial de espera.

Afinal, nossa vida, quase sempre, é definida por esperas. Nos tempos que vão, a vida nunca foi tão demarcada por esperas: pela passagem de cada ano de estudo, pelo progresso na carreira, pelas fases da vida familiar, nascimento, vida e morte, pelo contra-cheque ou pelo próximo prato de comida. A vida é feita de tempo, mas de um tempo que não controlamos, que não podemos interromper, acelerar, pular fases. É preciso esperar.

A vida de cada um depende daquilo que se espera: sucesso, triunfo, comida, prazer. E como se espera: com paciência, com angústia, com terror ou tremor. É uma espera particular que define o santo: a espera pelo melhor, pelo Paraíso depois do Juízo. O santo não tem pressa, nem se ocupa das coisas esperadas nesse mundo, pratos grosseiros, de acordo com Segneri. Querem apenas os manjares mais finos e, por isso, esperam, não buscam.


sexta-feira, 29 de julho de 2011

At si forte eadem est ulmo coniucta marito

Sobre a figura do casamento do elmo e da vinha, empregada por Segneri:

“Mas existem, creio, certos elementos retóricos de tipo botânico que se desenvolvem fora da esfera virgiliana. Nas páginas seguintes, gostaria de tratar do tradicional motivo do olmo e da vinha (sugerindo a verdadeira união do marido e esposa) como um topos distinto da literatura ocidental desde o primeiro século antes de Cristo até os tempos modernos. Como veremos, o topos do olmo praticamente não muda em seu significado marital de Catulo (87-58) a Heinrich Von Kleist (1777-1811). Ainda que ocasionalmente associado com motivos paralelos de significado similar e adquira conotações particulares nos primeiros tratados teológicos cristãos, assim como nos livros de emblemas da Renascença, ele constantemente sugere, para escritores de várias eras, uma idéia e um ideal de casamento e ilustra o fato de que, na literatura do Ocidente, é um lugar comum retórico verdadeiramente aere perenius”. Peter Demetz, “O Olmo e a Vinha: notas sobre a história de um topos relativo ao casamento” Transactions and Proceddings of the Modern Laguage Association of America, vol 73, n. 5, dezembro de 1958.

A poesia de Catulo é o Carmen LXII. Em: http://rudy.negenborn.net/catullus/text2/l62.htm há o texto original e várias traduções. É vasta também a iconografia deste topos.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Cât sânge aste locuri setóse îngitira

Não é fácil resumir todas as implicações da comparação feita por Segneri entre a modéstia exigida daqueles que servem a Deus e o exemplo de São José, santo comemorado no dia 19 de março.

A hagiologia empregada no texto, por exemplo, é surpreendentemente precisa. A figura de São José, de fato, permaneceu ausente do culto católico por séculos, uma situação descrita de forma dramática por Sandra Miesel: “Imagine um mundo onde nenhum cristão recebe o nome de José, onde nenhuma igreja ou organização religiosa traz seu nome. Imagina São José ausente da Missa, do Breviário, do Calendário da Igreja e da Litania dos Santos. Nenhum sítio sagrado, nenhuma devoção especial, nenhum hino, nenhuma imagem própria, nenhum costume popular, nenhuma refeição festiva faz homenagem a São José. O mundo sem São José foi a Cristandade até o século XIV. Até esse ponto, São José foi completamente ignorado, reduzido a um carregador de estandarte no cortejo da Salvação” (Sandra Miesel. “Encontrando São José”, em CatholicCulture.org, 2002).

Por outro lado, Segneri omite cautelosamente as razões desse esquecimento. Ele nada teve a ver com alguma modéstia pessoal ou com uma reflexão moral sobre sua figura. Trata-se de uma conseqüência teológica inevitável da Encarnação, agravada pela rápida emergência do culto de Maria como a mãe de Deus. A necessidade de defender sua pureza fundamental deixava o seu casamento terreno em dúvida, uma vez que a lei judaica, por exemplo, não reconhece a validade de casamentos não consumados. Para complicar o cenário, era a lei romana que reconhecia o casamento meramente legal e a regular adoção dos filhos de terceiros, fonte de intermináveis abusos.

Não foi à toa, portanto, que a figura de São José feneceu na sombra por séculos. Um levantamento recente de sua imagem em iluminuras medievais mostra que em 10% dos casos as referências são mesmo pouco honrosas, repetindo a figura dos maridos enganados pelos deuses na mitologia grega.

Segneri também não examina em detalhe as razões do renascimento do culto de São José, ainda que, em seu tempo, sua expansão seguisse em ritmo acelerado, e que sua origem pudesse ser datada com precisão: a publicação, por Jean Gerson, das Considerações sobre São José em 1413, e o sermão de 8 de setembro de 1416, Jacob autem genuit Joseph (Mateus I, 16), perante o Concílio de Constança.

Muitas causas podem ser invocadas para tal renascimento. A mais razoável parece ser, contudo, um sentimento global de insegurança provocado pelas imensas crises humanas e políticas da segunda metade do século XIV. Naquele momento, em pleno Grande Cisma, com a Igreja dividida em facções combatentes, invocar o valor e a estabilidade da família exigia um novo tratamento da paternidade temporal. No caso específico, centrada sobre a imagem de São José. (Paul Payan, “Para reencontrar um pai. A promoção do culto de São José no tempo de Gerson”. Cahiers de Recherches Médiévales et Humanistes. 4, 1997).

Nesse ponto, por sinal, a elaboração de Jean Gerson e a menção de Segneri se alinham perfeitamente. O servidor da Igreja deve ser como José: trabalhador, modesto, mais preocupado em praticar o amor e cuidar de quem precisa do que na glória de linhagens ilusórias. Todos, afinal, somos filhos de Deus.



Georges de la Tour (1593-1652). São José Carpinteiro (c. 1640)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

De esci tu essecutor inaltelor decrete

Nas inflexões de um texto que soa convencional, transparece sua notável capacidade de observação humana. É verdade que Segneri foi aceito na Companhia ainda adolescente e conviveu por décadas com as realidades de uma instituição que era, ao mesmo tempo, religiosa e temporal, dominada pela absoluta autoridade papal. Ainda assim, surpreende a precisão dos sinais de desvios de fins e meios em uma organização composta, afinal, por homens.

O primeiro deles, o ressentimento das injúrias, aponta para a identificação entre os interesses da pessoa que ocupa uma posição de comando e os interesses da organização que dirige. É a deformação da satisfação simbólica de participar de uma ação coletiva, quando o dirigente se torna mais preocupado com palavras do que com atos. No caso, quando o prelado ofende-se mais com a má palavra do que com a má ação.

O segundo deles, o calor do interesse, aponta para a mudança de prioridades em uma organização complexa, quando seus fins internos se tornam mais importantes do que suas missões públicas. Para construir uma obra real, no mundo, nunca é a hora; para aumentar os recursos de sua casa, sempre é a hora.

O adjetivo notável foi empregado no primeiro parágrafo porque os sinais descritos por Segneri são os mesmos usados pela ciência social contemporânea para descrever os efeitos colaterais de qualquer processo de ação coletiva. Os benefícios simbólicos e materiais produzidos por tal ação tendem a ser distribuídos de forma mais favorável para os que lideram e comandam tais ações. A personalização da liderança e o desvio de finalidade são seus primeiros efeitos. A alma ativista de Segneri tinha pouca paciência com burocratas religiosos que apenas usam a Vinha do Senhor.


Capa de A Lógica da Ação Coletiva (1965), de Mancur Olson Jr., lição definitiva sobre os chamados incentivos seletivos apropriados pelos líderes de qualquer organização social.

sábado, 25 de junho de 2011

De unde oar' vine a ta reverie?

Raramente tal consideração é explícita, mas o caráter sagrado de um vitória atlética na Antiguidade também decorria da percepção do inevitável sofrimento que o treinamento envolve. Nos tempos modernos, o esporte é visto como componente de um sistema de valores hedonistas, mas uma coisa é competir; outra, vencer e vencer sempre. Nesse ponto, há uma correspondência evidente com o sacrifício corporal exigido pela Fé.

A síndrome hoje conhecida como supertreinamento (overtraining, em inglês), decorrente de uma dedicação compulsiva ao exercício, é justamente composta por prostração, dores permanentes pelo corpo, feridas nas pernas, redução no desempenho esportivo, insônia, dores de cabeça, baixa imunidade, irritabilidade, depressão, perda do apetite, contusões frequentes, entre outros. Uma forma de flagelação, como se nota com facilidade. (http://sportsmedicine.about.com/cs/overtraining/a/aa062499a.htm).

O exercício físico necessário para triunfar nos esportes - deixando de lado, aqui, formas de estimulação química - pode se transformar em martírio. Não é raro que o atleta com tal síndrome busque ainda mais treinamento e mais sofrimento. O corpo se torna, ele mesmo, um obstáculo para obter o prêmio do Espírito - a vitória. Não existe sinal, contudo, desta associação mais direta no texto de Segneri. Parece seguir literalmente o paradigma poético dos Antigos.



O atlético "Cristo atado à Coluna", de Manuel Chili, o Caspicara (1723-1796).

sábado, 11 de junho de 2011

Dicend: asculta, eu te iubescu

Como ressalta o comentário bíblico de Matthew Henry, todo o trecho da primeira epístola aos Coríntios examinado pela nota de Segneri é marcado por imagens retiradas das competições esportivas da Antiguidade. A sensibilidade dos habitantes de Corinto é natural, pois os Jogos Ístmicos eram celebrados em sua vizinhança desde o ano 582 a.C, sendo suprimidos como ritual pagão apenas no século IV, sob Teodósio I. No tempo do Apóstolo, constituía, portanto, uma tradição multisecular.

No versículo I Coríntios, 9.27, chega mesmo a dizer que o pregador da palavra de Deus deve submeter seu corpo à disciplina para que não seja "reprovado". O termo grego empregado, adokimos, é de natureza esportiva: descreve o descarte, pelo juiz, de quem não tem condições de concorrer. Segneri, por sua vez, sugere que Cristo mesmo seja o grande corredor, o grande atleta.

O caráter sacro do vencedor da competição esportiva era também uma imagem corrente e muito de sua solenidade pode ser atribuída à poesia de Píndaro (522 a. C. - 443 a.C). Suas odes são o melhor registro da nobre visão da Antiguidade sobre o atleta vencedor, capaz de levar a fama eterna para si e para os seus:

(50) ... Zeus concede o bem e o mal, Zeus o senhor de tudo.
Mas honras tais como estas bem recebem a alegria do triunfo,
coberta com o delicioso mel da canção.
(55) Deve o homem disputar e contender nos jogos
se aprendeu com a estirpe de Cleônicos.
O longo treino de seus homens não se esconde na cega escuridão
nem o pensamento de seu custo estremece sua devoção à esperança.
Celebro Píteas também entre os lutadores que domam os membros
(60) com hábeis mãos guiando retamente os golpes de Filácidas
cuja mente é sem igual.
Toma uma guirlanda para ele e um fio da lã mais fina
envia-os com esta alada canção.

Ode Ístmica 5. Para Filácidas de Egina, vencedor do pancrácio em 478 a.C.




Não falta a Segneri, contudo, uma referência local ao heroísmo de uma competição esportiva, transparente no uso do termo palio. Como se sabe, trata-se de uma tradição medieval de fundo religioso, uma corrida de cavalos sem sela, realizada em Asti ao menos desde o ano 1275 e em várias outras cidades italianas. Palio é o nome de uma peça de roupa, usada em Roma como manto, que marcava o local do fim da corrida e era também o prêmio do vencedor.



Imagem do Palio de Asti. Século XVIII.