terça-feira, 31 de agosto de 2010

et percutiebant caput eius

Considera, che trà sorti d'Infermi si trovano. Uns querem se curar, mas não querem tomar remédio. Aquela bebida é amarga; aquele ferro, muito cruel. Outros aceitam o remédio, mas a seu modo. Como Naman, que pedia a cura para sua lepra, mas não queria se banhar no Jordão. Por fim, há aqueles que se apresentam diante do Senhor, pondo-se completamente em suas mãos. Corta-me, mas cura-me. Ora, esse é o único método de curar. Estás enfermo e de moléstia mortal; deixa que o Senhor aplique o remédio que te convém. Considera que o médico nem sempre age com sua própria mão, mas entrega a tarefa a mãos menos nobres, como de um Cirúrgico, de um Especial ou de um Servente. Assim faz Deus: tua salvação vem por vezes de alguém de baixa condição, de alguém muito inferior a ti. Não olhes quem aplica o medicamento, mas o medicamento. Considera que quando o remédio é doloroso, o que é pedido é que o sintas, o sofra. Não quereles com o médico que te corta, paga-o. Considera que nas humanas tribulações, não há tanto a dor, quanto a ignomínia, não tanto o dano, quanto o insulto. Deus assim te humilha e testa tua paciência. Um Príncipe, para aceitar uma moeda no seu reino, se conforma com sua aparência? Não, a testa no fogo. Queres que no Céu corra a moeda falsa? Così fece questa gran Santa di oggi, che può giustamente chiamarsi donna forte, per la sodezza, la qual mostrò in tante prouve, che Dio ne tolse, di dolore egualmente, e di umiliazonie.

(marzo ix, Omne modo tibi applicitum fuerit ... Eccli 2. 4)

Sufla un vînt, si luna 'ngrozita

A figura da espera de Deus pelo pecador é clássica na oratória cristã, sendo conhecida a associação com a Parábola do Filho Pródigo. O problema do julgamento de Deus não é o seu exercício, mas o seu tempo; Ele não precisa de razões para punir, pode fazê-lo a qualquer momento, mas espera para perdoar. Em sua meditação, contudo, Segneri vai um pouco além desse lugar comum. Fino analista da alma humana, sabe o quanto sua correção depende do julgamento subjetivo do tempo. Quem faz o mal, sabe que faz e acredita também que há tempo de sobra, na vida, para se arrepender e corrigir seus passos. Como escreveu Santo Agostinho: dai-me continência e recato, mas não agora! A meditação proposta por Segneri visa a tranquilidade do pecador, a sensação de que a vida é longa, de que o Senhor é paciente. Para o Homem, o curso da vida é o calendário, o número fixo de dias e meses e a confiança nos anos que ainda há por vir. Posso pecar de janeiro a novembro, se me arrepender em dezembro. Os números de Deus, contudo, são inescrutáveis. O seu tempo, alerta Segneri, pode já estar cumprido.

O comentário de Sócrates, sobre esse mesmo ponto, é mais leve. Muitos homens afirmam que ainda é cedo para que iniciem o estudo da Filosofia. Não os entendo - é como adiar o início da felicidade.



sábado, 31 de julho de 2010

an divitias bonitatis ejus

Considera quanto perniciosa ignoranza sia questa: non sapere perché Iddio tolleri tanto pazientemente nel tuo peccato. Pois que ignoras, não te corriges. Deus pode enviá-lo agora ao Inferno, mas espera. Não bastaria essa magnificência para comover teu coração? Como não tremes diante da possibilidade de que Ele te abandones e te entregue à Justiça Divina? A Bondade de Deus é infinita, mas tem um número finito e inescrutável para te tolerar. Quem sabe se ele não está computado? Uma coisa é a Misericordia como atributo, outra, como ato. Questi pur troppo hanno fine. Multae sunt miserationes ejus, così si dice; ma non così mai si dice infinitae sunt.

(marzo viii, ignoras quonian benignitas... Rom 2. 4)

domingo, 25 de julho de 2010

Numai relijiósa a candelei lumina


Renn Dickson Hampden. The Life of Thomas Aquinas. A Dissertation of the Scholastic Philosophy of the Middle Ages. London, Griffin, 1848, pág 25.

S'a stelelor de aur multime luminósa


A tentação de São Tomás (1338)
Bernado Daddi (c.1280-1348)


A tentação de São Tomás (1632)
Diego Velázquez (c.1599-1660)

Entre a tela de Daddi e a de Velázquez, 300 anos e notável evolução iconográfica. Na tela medieval, apenas os dois anjos da legenda e uma mulher, vestida, cuja única indicação sobre sua posição no quadro é a falta de uma auréola. São Tomás busca apenas a proteção da Cruz. Em Velázquez, a descrição completa do episódio. Os livros com que estudava, o tição com que afastara a mulher enviada pelos irmãos, o curativo que lhe fazem os anjos. Em dupla, por sinal, como na tela de Daddi. Velázquez também não se arrisca a incluir uma mulher nua no mesmo cômodo em que está São Tomás. Estudo ou mulheres? Um dilema que jamais afetou outro santo, Agostinho.

Mulier enim statim ut audivit eo

Considera, la differenza, che passa tra la Sapienza divina, di cui quì si ragiona, e tra la Prudenza ambedue per altro unitissime, come quelle que sono due d'un istesso Spirito Santo. A sabedoria nos faz conhecer o último fim, que é Deus; a Prudência nos guia a esse fim. A Sabedoria deve ser tua esposa; a Prudência, tua amiga. A Sabedoria luta contra tua Sensualidade; a Prudência, contra tua Humanidade, sempre pronta a dizer que a salvação exige um sacrifício mínimo. Vê o caso de São Tomás e a mulher: o quanto exige a santidade em Sabedoria e Prudência. Sapienza per tener sempre vivissima nella mente la cognizione del tuo ultimo fine, per aderire a lui con fortezza; Prudenza per fuggire le occasione pericolose, ó per isbrigartene quando esse vengono contro tua voglia a trovarti.

(marzo vii, Dic Sapientiae; soror mea es..., Provérbios 7, 4)

domingo, 27 de junho de 2010

Încerce acum sórta sa'mi crasca suferira

Uma vez mais, é digna de nota a sensibilidade de Segneri ao problema sociológico da fé. Sua meditação trata mais diretamente da necessidade do sacrifício a Deus, mas, de forma sutil, enfatiza que tal sacrifício é de tanto maior valor quanto maior é a posição social de quem se sacrifica. Instintivamente percebe o que a sociologia inglesa dos anos 1970, em desafio à visão convencional do marxismo, afirmava sobre o real alvo da ideologia. O objeto do trabalho ideológico mais sofisticado não podem ser os oprimidos, que mal têm condições de compreender seu próprio mundo, mas as elites, no sentido amplo do termo. São as elites que dispõe do conhecimento e do poder social para a manutenção da ordem e precisam acreditar em tal ordem. Quando as elites desertam, é um claro sinal do fim - uma constatação válida seja para a religião organizada, seja para o socialismo real.

Segneri, aliás, também não se limita a um lamento crepuscular sobre o abandono da fé pelos ricos e poderosos de seu tempo. Responde ironicamente à argumentação de que o sacrifício a Deus é penoso. O hedonismo (o de então e o de agora) apenas substitui uma submissão por outra. O que é melhor, pergunta, sacrificar-se a Deus e ao próximo ou sacrificar-se ao ventre e ao dinheiro? É inevitável lembrar a linha de Paulo: que adianta ao Homem ganhar o Mundo se perder sua Alma?