sábado, 16 de outubro de 2010

Santa Francesca Romana

A referência de Segneri é precisa. De Santa Francesca Romana (1384-1440) ou Francesca Bussa de’ Buxi de’Leoni poderia ser dito que teve uma vida quase comum, tocada apenas pela paixão da caridade e pelo infortúnio comum de seu tempo. De família nobre e rica, teve boa instrução e casou aos treze anos de idade com Lorenzo de’ Ponziani, também rico e nobre. Frustrada em sua vocação religiosa, Francesca pensou em deixar-se morrer de fome, mas Santo Aleixo a visitou em sonhos, avisando que o Senhor desejava que vivesse. Aceitou os dons da vida, o marido, os filhos, uma palácio, mas dedicou-se desde cedo à caridade. Certa vez, recebeu a guarda dos armazéns do sócio de seu marido e deu tudo aos pobres. Antes que ele reclamasse, os armazéns foram miraculosamente reabastecidos.Não ligava para festas ou convenções sociais, vendeu suas roupas e suas jóias. É verdade que lutou com o demônio, fez uma viagem mística ao Inferno e ao Purgatório e teve seus êxtases, mas estes foram comunicados a seu confessor. Apenas em 1870, essas confissões foram publicadas pela Igreja.

Em 1409, as provações começaram. Seu marido, comandante das tropas papais foi ferido em batalha e ficou paralítico. Em 1410, sua casa foi saqueada por inimigos políticos do Papa, seu marido teve de fugir e um de seus filhos foi levado como refém por Ladislau, rei de Nápoles. Durante uma epidemia de peste, abriu seu palácio aos doentes, dois filhos contraíram a doença e faleceram, Inês e Evangelista. A vida, porém, seguiu. Depois da guerra, dos saques e da peste, voltou a viver com seu marido doente e seu único filho, sempre trabalhando pelos pobres. A partir desse tempo, dizia ser acompanhada todo o tempo por um Anjo, que lhe apareceu em sonhos, ao lado de seu filho. Em 1425, com um grupo de amigas, funda uma associação de caridade, as Oblatas Olivetanas de Maria, depois Oblatas de Santa Francesca Romana. Com a morte do marido em 1436, após quarenta anos de casamento, passou formalmente à vida religiosa na congregação que fundara, ensinando suas revelações às irmãs, promovendo a caridade e pregando em favor do fim do Grande Cisma. Morreu, porém, em sua casa, o Palácio Ponziani, onde fora assistir seu filho doente. Seu filho recuperou-se; ela faleceu no dia 9 de março, o mesmo dia em que nasceu o escritor dessa nota. Foi supultada na Igreja que leva seu nome, praticamente onde esteve o Templo de Vênus e de Roma, e declarada santa em 29 de maio de 1608. É invocada como protetora em tempos de peste e, desde 1951, é a a protetora dos motoristas. O Mal nunca lhe desviou do Bem.

(Artigo de Antônio Borrelli: http://www.santiebeati.it/dettaglio/26350)




Giovanni Antonio Galli, dito Spadarino (1585-1652). Santa Francesca Romana com o Anjo.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

et percutiebant caput eius

Considera, che trà sorti d'Infermi si trovano. Uns querem se curar, mas não querem tomar remédio. Aquela bebida é amarga; aquele ferro, muito cruel. Outros aceitam o remédio, mas a seu modo. Como Naman, que pedia a cura para sua lepra, mas não queria se banhar no Jordão. Por fim, há aqueles que se apresentam diante do Senhor, pondo-se completamente em suas mãos. Corta-me, mas cura-me. Ora, esse é o único método de curar. Estás enfermo e de moléstia mortal; deixa que o Senhor aplique o remédio que te convém. Considera que o médico nem sempre age com sua própria mão, mas entrega a tarefa a mãos menos nobres, como de um Cirúrgico, de um Especial ou de um Servente. Assim faz Deus: tua salvação vem por vezes de alguém de baixa condição, de alguém muito inferior a ti. Não olhes quem aplica o medicamento, mas o medicamento. Considera que quando o remédio é doloroso, o que é pedido é que o sintas, o sofra. Não quereles com o médico que te corta, paga-o. Considera que nas humanas tribulações, não há tanto a dor, quanto a ignomínia, não tanto o dano, quanto o insulto. Deus assim te humilha e testa tua paciência. Um Príncipe, para aceitar uma moeda no seu reino, se conforma com sua aparência? Não, a testa no fogo. Queres que no Céu corra a moeda falsa? Così fece questa gran Santa di oggi, che può giustamente chiamarsi donna forte, per la sodezza, la qual mostrò in tante prouve, che Dio ne tolse, di dolore egualmente, e di umiliazonie.

(marzo ix, Omne modo tibi applicitum fuerit ... Eccli 2. 4)

Sufla un vînt, si luna 'ngrozita

A figura da espera de Deus pelo pecador é clássica na oratória cristã, sendo conhecida a associação com a Parábola do Filho Pródigo. O problema do julgamento de Deus não é o seu exercício, mas o seu tempo; Ele não precisa de razões para punir, pode fazê-lo a qualquer momento, mas espera para perdoar. Em sua meditação, contudo, Segneri vai um pouco além desse lugar comum. Fino analista da alma humana, sabe o quanto sua correção depende do julgamento subjetivo do tempo. Quem faz o mal, sabe que faz e acredita também que há tempo de sobra, na vida, para se arrepender e corrigir seus passos. Como escreveu Santo Agostinho: dai-me continência e recato, mas não agora! A meditação proposta por Segneri visa a tranquilidade do pecador, a sensação de que a vida é longa, de que o Senhor é paciente. Para o Homem, o curso da vida é o calendário, o número fixo de dias e meses e a confiança nos anos que ainda há por vir. Posso pecar de janeiro a novembro, se me arrepender em dezembro. Os números de Deus, contudo, são inescrutáveis. O seu tempo, alerta Segneri, pode já estar cumprido.

O comentário de Sócrates, sobre esse mesmo ponto, é mais leve. Muitos homens afirmam que ainda é cedo para que iniciem o estudo da Filosofia. Não os entendo - é como adiar o início da felicidade.



sábado, 31 de julho de 2010

an divitias bonitatis ejus

Considera quanto perniciosa ignoranza sia questa: non sapere perché Iddio tolleri tanto pazientemente nel tuo peccato. Pois que ignoras, não te corriges. Deus pode enviá-lo agora ao Inferno, mas espera. Não bastaria essa magnificência para comover teu coração? Como não tremes diante da possibilidade de que Ele te abandones e te entregue à Justiça Divina? A Bondade de Deus é infinita, mas tem um número finito e inescrutável para te tolerar. Quem sabe se ele não está computado? Uma coisa é a Misericordia como atributo, outra, como ato. Questi pur troppo hanno fine. Multae sunt miserationes ejus, così si dice; ma non così mai si dice infinitae sunt.

(marzo viii, ignoras quonian benignitas... Rom 2. 4)

domingo, 25 de julho de 2010

Numai relijiósa a candelei lumina


Renn Dickson Hampden. The Life of Thomas Aquinas. A Dissertation of the Scholastic Philosophy of the Middle Ages. London, Griffin, 1848, pág 25.

S'a stelelor de aur multime luminósa


A tentação de São Tomás (1338)
Bernado Daddi (c.1280-1348)


A tentação de São Tomás (1632)
Diego Velázquez (c.1599-1660)

Entre a tela de Daddi e a de Velázquez, 300 anos e notável evolução iconográfica. Na tela medieval, apenas os dois anjos da legenda e uma mulher, vestida, cuja única indicação sobre sua posição no quadro é a falta de uma auréola. São Tomás busca apenas a proteção da Cruz. Em Velázquez, a descrição completa do episódio. Os livros com que estudava, o tição com que afastara a mulher enviada pelos irmãos, o curativo que lhe fazem os anjos. Em dupla, por sinal, como na tela de Daddi. Velázquez também não se arrisca a incluir uma mulher nua no mesmo cômodo em que está São Tomás. Estudo ou mulheres? Um dilema que jamais afetou outro santo, Agostinho.

Mulier enim statim ut audivit eo

Considera, la differenza, che passa tra la Sapienza divina, di cui quì si ragiona, e tra la Prudenza ambedue per altro unitissime, come quelle que sono due d'un istesso Spirito Santo. A sabedoria nos faz conhecer o último fim, que é Deus; a Prudência nos guia a esse fim. A Sabedoria deve ser tua esposa; a Prudência, tua amiga. A Sabedoria luta contra tua Sensualidade; a Prudência, contra tua Humanidade, sempre pronta a dizer que a salvação exige um sacrifício mínimo. Vê o caso de São Tomás e a mulher: o quanto exige a santidade em Sabedoria e Prudência. Sapienza per tener sempre vivissima nella mente la cognizione del tuo ultimo fine, per aderire a lui con fortezza; Prudenza per fuggire le occasione pericolose, ó per isbrigartene quando esse vengono contro tua voglia a trovarti.

(marzo vii, Dic Sapientiae; soror mea es..., Provérbios 7, 4)