sexta-feira, 12 de junho de 2009

Beatus vir, qui suffert tentationem

Considera qual'è la cagione per cui permette il Signore, che il Demonio si sciolga contro di te, che ti vengano trabalhos, que te venham tribulações, que é para provar se tu o ama. É tempo de estar em prova, aceita o desafio do Senhor, como Santo Antonio Abbate. Se combatia no passado para obter uma coroa de louros, de pinho, quanto melhor não será lutar para obter a coroa da glória, immarcescibilem coronam gloriae. Crês em um Príncipe que te promete um pálio e não crês na promessa de Deus? A coroa que não se pode ver? Quanto à la sua sofferenza, tanta sarà parimente la tua corona ch'è la cagione, per la quale anche non dicesi che il Signore promisit illam, mas ripromisit, porque não é um regalo; é uma recompensa.

(gennaio xvii, Tiago 1, 12)

l'autra es cors e volontatz

A administração da própria vontade não é coisa trivial. O desassossego humano é fato concreto e cotidiano. A paz da alma é algo buscado com prioridade. A consultoria de saúde IMS Health, em seu relatório de 2008 sobre a venda de medicamentos nos Estados Unidos trouxe o dado decisivo: mesmo perdendo a margem sobre os medicamentos controladores de colesterol, os antidepressivos são, desde o início da década, os remédios mais vendidos em valor. Em 2003, a vendas de antidepressivos passavam de 207 milhões de dólares; em 2007, elas chegaram a 232.7 milhões. Sozinhos, representam mais de 6% do gasto com remédios nos Estados Unidos. Os controladores de colesterol vêm em segundo lugar, com quase 221 milhões, mas o terceiro lugar na lista também é sugestivo: codeína e combinados totalizam vendas de 186,1 milhões de dólares. Boa parte desses analgésicos certamente são usados para obter a chamada paz da alma.

As instruções oferecidas pelo site de aconselhamento médico PDR Health sobre a prescrição do principal antidepressivo, o Prozac, pareceria familiar para qualquer especialista do século XVII no estudo da Melancolia:

"Prozac é prescrito para o tratamento da depressão - isto é, uma contínua depressão que interfere com o funcionamento diário. Os sintomas de depressão maior incluem mudanças de apetite, hábitos de sono, coordenação mente-espírito, diminuição do desejo sexual, fadiga, sentimentos de culpa ou depreciação, dificuldades de concentração, pensamento lento e pensamentos suicidas. Prozac também é prescrito para tratar o transtorno obsessivo-compulsivo. Uma obsessão é um pensamento que não se vai; uma compulsão é uma ação repetida para reduzir a ansiedade. A droga também é usada no tratamento da bulimia e outras desordens da alimentação, inclusive obesidade.

Além disso, Prozac é usado no tratamento da síndrome do pânico, inclusive pânico associado com agorafobia e seus sintomas (taquicardia, dores no peito, suor, tremor, dificuldades de respiração). No caso de crianças e adolescentes, Prozac é usado no tratamento de depressão e do transtorno obsessivo compulsivo. Sob o nome de Sarafem, é usado também no tratamento da TPM, nos casos do mudança severa de humor, como ansiedade, depressão, irritabilidade ou raiva persistente e tensão".

Depois de guardar alguns instantes de respeito à notável qualidade literária da descrição médica, que parece extraída da pena de Robert Burton, pode-se meditar no paradoxo de uma sociedade livre e democrática, liberal em seus costumes, secular e tecnológica, rica e variada, onde o problema da paz da alma individual assume, por motivos reais ou imaginários, tal dimensão financeira e científica. É evidente que está no interesse das indústrias farmacêuticas ampliar a dimensão da depressão humana; é evidente que o indivíduo precisará de grande inteireza moral para não busca no medicamento o alívio para o menor dissabor, a mais pálida contrariedade. Não é surpresa, portanto, que o consumo recreativo do Prozac seja uma realidade. Traços do medicamento podem ser encontrados na água dos lençóis freáticos da Inglaterra, levados pelo sistema de esgotos.

Rir do ridículo da humanidade é uma antiga profissão filosófica, mas não chega a ser o melhor fecho para o comentário desses fatos. Talvez seja mais interessante considerar os homens dispostos a enfrentar a melancolia e conquistar a paz da alma sem a ajuda de medicamentos ou de seu equivalente pré-moderno - a magia. Em 1580, o frei Juan de Bonilla escreveu um notável tratado cujo título vai abaixo:




Bonilla recomenda uma delicada ascese da vontade:

quinta-feira, 11 de junho de 2009

et hoc scientes tempus

Considera, che il vero segno a conoscere se il Segnor viene amato con fedeltà, é conformar-se ao seu Santo querer Divino. Fácil quando ele nos concede saúde, glória, consolações espirituais; mais amargo quando é preciso sofrer a enfermidade, a desolação. Em qualquer caso, cabe cumprir a vontade de Deus [Sabedoria 3, 9: Os que põem sua confiança nele compreenderão a verdade, e os que são fiéis habitarão com ele no amor: porque seus eleitos são dignos de favor e misericórdia]. Chama Paolo o cumprimento dessa Vontade o Quietamento, da parte inferior e da parte superior da Vontade. Em muitos a vontade se aquieta mais rápido. mas não o intelecto; porque lhes parece muito estranho que Deus os trate daquela maneira, nem conseguem crer que aquilo é o melhor que pode lhes acontecer. Gottes Zeit ist die allerbeste Zeit, diz a cantata. Enquanto quiseres tirar de ti a vontade do Senhor, ou da que te governa em seu lugar, não acabarás de estar quieto; então te aquietarás quando o Senhor, ou a vontade que em seu lugar te governa, tiri a sè la tua, e però dagli una volta una totale disposizione di te. Aquiesce, como Jó 22, 21: e tem paz, e assim te sobrevirá o bem.

(gennaio, xvi)

poissas lur dis tot en apert

A prédica religiosa sobre o exercício da vontade não é funcional em uma sociedade de consumo. A valência positiva incondicional da afírmação da vontade está na base da publicidade, da escolha vocacional, das decisões maritais, do consumo, etc. Ela é ubíqua a um ponto tal que uma manifestação contrária é sempre polêmica. Casamentos baseados em um cálculo prudencial são condenados; conformar-se com o destino é a bête noire de toda a literatura de auto ajuda. É fácil concluir que a intensa difusão de tais idéias e valores é a contrapartida precisa da observância estrita dos comandos opostos. A imensa maioria das pessoas precisa se conformar com seu destino; a imensa maioria dos relacionamentos duráveis entre humanos sustenta-se em alguma forma de negação dos caprichos pessoais.

A razão é evidente e trivial: o livre exercício da vontade produz exatamente o resultado previsto pelo verso do Eclesiástico: você se torna a alegria de seus inimigos. De seus concorrentes sociais, para usar o linguajar contemporâneo. A realidade prática da vida da maioria das pessoas é aquela descrita por Paolo: o freio do cavalo, a disciplina, o treinamento.

Uma ironia nunca vem sozinha, nem a melhor é a que se percebe primeiro. A realidade dificultosa de indivíduos cotidianamente ensinados a resistir às pressões da mídia e das mitologias sociais, endossadas da boca para fora, é superada pela aparência singular do tratamento social dos que sucubem - os dos que acreditaram nos valores sociais dominantes.

Compradores anônimos, endividados anônimos, pródigos anônimos, viciados de todos os tipos, problemas que são para parentes, amigos e redes sociais, precisam ser submetidos a ritualizados tratamentos de controle da vontade. Sem qualquer apelo a um comando religioso superior - a um conselho oferecido por Deus - precisam realizar uma complexa operação intelectual para se curar. Se é que se curam.



(Imagem: Marcus Curtius lança-se ao abismo. Leonaert Bramer, 1657)

terça-feira, 9 de junho de 2009

et facta est tranquilitas

"Considera chi i nimici tuoi che sono i Demonij, di nessuna cosa mais gozam que quando te vêem comprazer facilmente à alma tua, isto é, à tua vontade. Sabem que é cavalo sboccato, que pouco a pouco te levará ao precipício. É preciso, pois, conformar a vontade às coisas lícitas. [Se satisfizeres a cobiça de tua alma, ela fará de ti a alegria de teus inimigos]. É preciso aniquilar a vontade, jejum, disciplina, contemplação. Qual è qual tempo in cui un Cavallo, massimamente vizioso, non habbia bisogno di morso? Paolo segue no exemplo do cavalo para demonstrar a certeza do progresso. Muito tempo solto, será difícil guiá-lo, conduzi-lo. Acostumado ao freio, não dá mais trabalho. Così proverai tu con la volontà."

(gennaio xv, Eclesiástico 18, 31)

segunda-feira, 8 de junho de 2009

aquel avangelis dures

A idéia religiosa de um conjunto finito de ações intrínsecamente maléficas, definidas de modo comportamental, distintas dos mandamentos divinos, merece toda a atenção por seu aspecto numérico, mas seu fascínio também pode ser derivado de uma tradução ao domínio secular. Todos sabemos que limitar a análise moral dos padrões de comportamento ao plano legal é quase inocência. O Direito é aquilo que a sociedade decide ser o Direito, escreveu Kelsen, não havendo razões para duvidar. De outro lado, o imperativo categórico e o princípio da utilidade são instrumentos poderosos demais para captar as sutilezas do exercício dos pecados cristãos. Em que ponto a gula é condenável? Gula é uma realidade humana diversificada demais para ter um julgamento ético definitivo pela utilidade ou pela norma universal.

Nenhum deles capta o sentido último da gula em sua persuasão íntima. Em que ponto a emulação se transforma em inveja? Resumiria aqui os paradoxos dos conceitos vagos: em que momento uma mera obsessão sensorial se transforma em uma transgressão, intimamente reconhecida como tal? Talvez seja uma pergunta sem resposta, mas é certo que existe a percepção subjetiva desse limite.

A experiência contemporânea reconhece essa fronteira do abominável, mesmo quando ela não é regulada pela legislação positiva. Em vários sentidos práticos, os pecados existem: ações que repugnam mesmo a uma consciência secular. A Inveja, por exemplo, não é objeto de legislação penal; afeta apenas ao seu portador; mas é inegável a repulsa social ao invejoso e, muito mais importante, a radical recusa a auto identificar-se como invejoso.

Um livro recente do jesuíta Giovanni Cucci, Il Fascino del Male, traz uma sugestão interessante: o conteúdo de todos os pecados mortais, em suas versões canônicas ou modernizadas, é uma forma de obsessão, de teimosia, de incapacidade de olhar para além de seu próprio horizonte. Essa teimosia é a mesma de Satã, que se recusou a adorar o Homem.

domingo, 7 de junho de 2009

mas .ii.jorn mi semblaran .vii.

Deus descansou ao sétimo dia; há sete braços no candelabro. Noé levou sete animais puros para sua Arca. A tradição judaica fala em sete câmaras da Geena e nos sete firmamentos. O Testamento de Rubem fala em sete espíritos do engano; Horácio (Epístolas 1.1.33-40) tem uma lista de sete vícios. Um cenobita do quarto século imaginou oito maus espíritos. Quem coleta essas informações, Solomon Schimmel (The Seven Deadly Sins, 1997, uma data que termina em sete por mero acaso), não se preocupa muito com o número ou com a identidade das listas de pecados ou de virtudes. Seja qual for a razão para um número preciso nas modalidades do Mal, porém, ela não pode ser trivial.

Notar a simetria com o Universo ou com os comandos de Deus é apenas repor o problema. Por que a escolha desse número em particular, o sete? O maior primo antes de dez, o primeiro número depois do número perfeito. Insondável porque foi criado o Mundo em sete dias e tanto assim será porque há sete pecados capitais.

Sete talvez seja uma maneira elegante de dizer que são muitos e variados, mas não inumeráveis, imprecisos, indistintos. Sete não é pouco, não é simétrico, e muitas são as faces do Mal.

O Vaticano, portanto, fez bem em esclarecer, em março de 2008, que não estava editando nenhuma lista de novos pecados ou ampliando o número canônico para incorporar pecados capitais como, por exemplo, jogar esgoto em um rio. A modernidade bem sabe que a desmoralização dos pecados está em seu número infinito.

O fato realmente relevante, pois, é a decisão de rejeitar a indistinção, de insistir em um mapa com pontos precisos, com itinerários de um mal a outro. Tranquilizar-se com a idéia de que o inimigo é finito, que é viável uma estratégia, que não seremos assediados por males desconhecidos, por tentações novas e imprevistas.





(Imagem: Bosch. Sete Pecados Capitais. 1495).