sábado, 29 de agosto de 2009

Drum lass ich ihn nur walten

Was Gott tut, das ist wohlgetan,
Es bleibt gerecht sein Wille;
Wie er fängt meine Sachen an,
Will ich ihm halten stille.
Er ist mein Gott,
Der in der Not
Mich wohl weiß zu erhalten;
Drum lass ich ihn nur walten.

O que Deus faz, está bem feito,
Permanece justa sua vontade;
Quando governa meus assuntos,
A Ele hei de guardar em silêncio.
Ele é meu Deus,
Que na Tristeza
Sabe bem como me guardar;
Portanto a Ele só deixo comandar.

(Primeiro coro, BWV 100, Was Gott tut, das ist wohlgetan III, poema de Samuel Rodigast, música de J.S. Bach)




(Imagem: Mosaico de Santo Apolinário in Classe, Ravena)

Si spiritu vivimus, spiritu et ambulemus.

Considera, che come il tuo corpo in tutte le sue operazione è mosso dell’anima, cosi la tua anima dev’essere ancora mossa in tutte le sua operazione dallo Spirito Santo; perchè come l’anima è vita del corpo, cosi lo Spirito Santo è vita dell’anima. Mas como é isso que outro Espírito te guiaria em suas operações. Sim, pois sem Deus teu espírito flutua sem direção, não se guia ao Paraíso, como adverte Gálatas 5, 25. Três são os vícios que te impedem de andar segundo o Espírito: Vanglória, Ira, Inveja. Não vês os que dão esmolas e pregam pelo amor do aplauso? Considera quão cativo é o espírito da vanglória, chamado espírito porque tem o poder de inflar-se: não é sólido, nem verdadeiro, nem útil – é vão. Não é sólido, pois se esvai; não é verdadeiro, pois não se ampara na boa opinião; não é útil porque não te ajuda em teu fim - o Paraíso. A glória pode te buscar, mas não te deixes inflar. Considera quão cativo é o espírito da Ira, chamada espírito por ser impetuosa. Afeta as três formas da Paz: do coração, com o próximo, com Deus. Te leva a paz do coração porque te faz como o Mar, che non può assaltare la nave, se non si turba. Te leva a paz com o próximo pela discórdia que promove. Te leva a paz com Deus, porque defender-se a si mesmo é demonstar que não confias em Deus. A Ira de Deus é sua Justiça – mas é preciso lhe dar o tempo justo, pois é uma ira tranqüila. Considera o espírito da inveja, chamado espírito porque seca – seca teus ossos. A inveja é chamada podridão, pois nasce do bem dos outros. Não é melhor render graças a Deus do que a outros? Quando cometeres um ato de inveja, castiga-te de pronto de forma solene, antes que a podridão te mate, penetrando-te nos ossos. A Ira e a Inveja são germes pestíferos do amor à glória humana. Odeia estes vícios que causaram a morte de Jesus, l’ira de’ Sacerdoti, sforzati dalla sua predicazione, l’invidia degli Scribi, storditi da’suoi prodigi.

(febbrajo vii, Gálatas 5, 25).

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Guillems es a vespras vengutz


Por uma curiosa coincidência, Isaac Fieri registrou a força do texto de Segneri e, em seu blog, havia uma referência ao mesmo experimento mental: o filme Groundhog Day (1993), escrito por Danny Rubin e Harold Ramis. Condenado a repetir o mesmo dia, o personagem de Bill Murray primeiro vive um pesadelo, tenta se matar várias vezes, mas aceita a redenção que, na leitura contemporânea, envolve realização romântica e a prática de pequenos atos de benevolência. O roteiro examina, ademais, com grande perspicácia o problema teológico da repetição e da redenção: ela proporciona o exame da própria vida, sempre evitado pelo personagem de Murray.

Há outro ângulo do experimento, também examinado pelo cinema em Retroactive (1997), escrito por Michael Hamilton-Wright, Robert Strauss e Phillip Badger. Nesse caso, Karen assiste um assassinato e, por meio de viagens no tempo, retorna ao mesmo ponto e tenta alterar o curso dos eventos, mas eles sempre se repetem para o pior. Repetir a vida de uma forma rendentora exige que você esteja no comando dos fatos - o que nem sempre é realista. Nada garante que um condenado à danação volte à vida e consiga corrigir seus caminhos, como sugere Segneri.

Muito depende da consciência de viver uma segunda chance. Há um célebre episódio de Star Trek New Generation em que a Enterprise está condenada há um ciclo catastrófico que repete, sem saber que está repetindo. Nesse caso, a passagem do tempo é neutra e o roteirista teve de inventar um recurso extraordinário para que o comando da Enterprise percebesse que estava preso em uma armadilha temporal.

Ora, se tudo depende da consciência, Segneri está correto em apelar para um thougt experiment. Imagina, nesta vida, que podes reverter o seu curso, como se começasses uma outra.

Pós-escrito: O episódio de Star Trek New Generation é Cause and Effect, número 18 da quinta temporada, exibido em 23 de março de 1992. O roteiro é de Brannon Braga e traz a Enterprise presa em um time loop. A tripulação descobre que está em um ciclo catastrófico que se repete, mas precisa receber uma mensagem que lhe indique como sair do ciclo. Data e Riker tem suas alternativas, mas Data percebe que a sua é mero fruto de uma memória e não uma mensagem. Adota a saída de Riker e a Enterprise evita a colisão com a Bozeman. A primeira nave estava no loop há 17 dias; a segunda, há oitenta anos. Uma vez mais, é preciso a consciência correta de uma repetição temporal para que seja evitada a catástrofe. Ou o Inferno, como quer Segneri.

domingo, 23 de agosto de 2009

Docebat autem discipulos suos

Considera Che gli anni passano presto, e che sai cosi, voltati indietro e rimira quei c’hai già scorti. Como parecem breves e assim hão de parecer os que ainda vêm. E todavia os gastas com vaidades? Vai-te a fazer a boa oração, a salmejar, a estudar, a operar em prol do próximo. Colherás na Eternidade o que houveres semeado no teu tempo. O tempo não é apenas curto: é irrevogável. É como a água que corre em seu leito. Ó, como lamentarás, na hora da morte, o tempo perdido. Vê como o tempo é precioso! Toda a partícula de tempo, se bem a traficas, te pode aproveitar muito em uma Monarquia, a maior do Universo. Considera o que não faria um danado se ressuscitasse e pudesse começar tudo de novo. Cuidas que desperdiçaria o tempo dado por Deus? E se tivesses de dar um preço ao tempo se não pudesses mais tê-lo? La vita umana é uma strada, La qual si batte uma volta sola. Chi sà pigliare le opportunitá ch’egli incontra de arrichire, di aprofittarsi, beato lui. Chi le trascura non può in eterno tornare indietro a corrigere l’error fatto.

(febbrajo vi, Jó 16, 23)

sábado, 22 de agosto de 2009

Quan l'us de l'autre si gausis



(Imagem: Pasinelli, Lorenzo, 1629-1700. Concerto de Anjos (c. 1650). Gravura, água-forte).

terça-feira, 18 de agosto de 2009

de paradiz fora tots dons.


A nota para o dia 5 de fevereiro traz um registro importante - a escolha de Jesus; e uma idéia belíssima: a opinião que sobre cada um têm os anjos no Paraíso. Não achei ainda a versão que procuro do Tratado do Anjo da Guarda, do padre Antônio de Vasconcellos, cuja primeira parte foi publicada em Évora, em 1621, e a segunda (Obra do Anjo da Guarda), em Lisboa, no ano de 1622, mas é possível adiantar alguns comentários.


Existe um livro recente sobre a existência do livre arbítrio no Paraíso e não me lembro se faz menção à figura empregada por Segneri: a opinião angélica sobre cada um. O que de mim pensam os Anjos? é a pergunta que recomenda. Julgo difícil sustentar, contudo, seriamente, que os Anjos possam ter uma opinião que não seja exatamente a de Deus. Não tendo eles o livre arbítrio, não podem ter um julgamento, sobre nós, que seja independente da condenação ou da graça de Deus.

Há uma exceção, naturalmente: aquele Anjo e seus companheiros que não se curvaram diante do Homem. Estes seriam os únicos Anjos que poderiam, sem contradição, ter uma opinião sobre cada um dos homens.

Sobre a escolha de Jesus Cristo, é inevitável a comparação com a escolha da justiça, tal como exposta por John Rawls. Sua conclusão é conhecida: a incerteza de nossa posição na Ordem do Mundo nos faz racionalmente escolher uma Ordem em que a pior posição pode ser, apesar de tudo, tolerável. Estranha a Justiça de Deus: podendo escolher sua posição na Ordem do Mundo, deixou que lhe coubesse, na condição de Homem, uma completamente intolerável.

(foto: John Rawls)

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

sustinuit crucem, confusione contempta

Considera qual’è questa bataglia, che ti è proposta, propositum tibi certamen. É aquela que sustentas contra os três inimigos, imoderado amore alla roba, imoderado amore ai piaceri, amor da reputação. Primeiro deves deixar de lado os impedimentos, depor o peso dos pecados para enfrentar mais leve a batalha. Segundo, deves tomar o exemplo de Jesus, um Senhor tão delicado. Pega o crucifixo e pondera sua Paixão. Considera que ele não te propõe uma batalha que lhe era desconhecida. Ele escolheu ser pobre, ele escolheu a dor, escolheu o desprezo. A ti fará muito superar a pobreza para servir a Deus, superar a Dor, mas antes de tudo fará o superar o Desprezo. Considera que não se diz (Hebreus 12, 1) que Cristo superou o desprezo, se diz que o desprezou, confusione contempta; porque este é o modo de superá-lo facilmente, desprezá-lo. Isto faz aos tementes um pouco de confusão; a muita estima dos juízos humanos. Que importa a ti aquilo que te diz a gente? A verdadeira estima é aquela que se forma de ti no Paraíso, entre os Anjos, entre os Arcanjos, no trono augusto das três Pessoas Divinas. Àquela pois, é necessário, que olhes. Esta dos homens é vã, é instável, é injusta, é enganadora e, para ser breve, deixa-a andar. Como seja. Questo in uma parola è cio, Che ci vuole a vincere facilmente la confusione, non l’aprezzare.

(febbraio v, Hebreus 12, 1)