Considera che non dice che chi sta, qui stat, vegga di non cadere, mas chi si crede di stare. Qui se existomat stare: perchè chi v'è, che verità stia de modo, che non vacilli? Ninguém pode estar seguro, Paolo recorda de Lúcifer, de Sansão, do rei David, sempre vulneráveis ao mal, à tentação. Os novos e os velhos na fé devem estar sempre em tremor; os penitentes porque caíram, os inocentes para que não caiam, por isso diz o apóstolo em I Coríntios 10. [é o verso 12 Aquele pois que cuida estar em pé, olhe que não caia]. Oito são as coisas que levam à queda, quatro intrínsecas, as outras extrínsecas. Intrínsecas, diz Paolo, são: i, a vista curta; ii, a fraqueza; iii, o peso de si mesmo; iv, a presunção de não cair. As outras são: i, a lubrificação da estrada, que faz cair; ii, a variedade de obstáculos e redes, como as que pegam os pássaros; iii, os muitos que hão a convencer do mal; iv, os pesos que se põem nos ombros, como as cargas sobre os jumentos. Sempre será possível superar? Não. Por isso, não te desvies e pede a ajuda Divina. Senza'ambedue queste cose, tu non puoi dare la via del Signore, ne pure un passo, che non sia di rischio gravissimo.
(gennaio xiv)
domingo, 7 de junho de 2009
quinta-feira, 4 de junho de 2009
mas suffri s'o non sai per que
É comum a afirmação de que "a ingratidão é o maior defeito". Relações familiares, por exemplo, nunca escapam dos dilemas da interação estratégica e a expressão "chantagem emocional" deve sempre ser levada a sério. Matando tempo em salas de aeroporto, na saída de escolas e em outros hiatos semelhantes, refleti que a expressão é justa e com razões derivadas da teoria dos jogos.
O problema da cooperação não é apenas o da sua emergência, mas sua sustentação continuada, por várias rodadas do mesmo jogo. O reforço psicológico (um aspecto contextual de aprendizado fundamental para a compreensão realista dos jogos em ambientes sociais, como reconhece Shubik) para o "tit" que se segue ao "tat" pode ser descrito, sem nenhum favor, como gratidão. Pode bem se descrita igualmente como um efeito residual de trocas (monetárias, emocionais, sexuais, etc) continuadas e bem sucedidas. A gratidão reduz, a longo prazo, o custo inicial da cooperação, pela difusão evolucionária da percepção de que o gesto de boa vontade terá uma resposta positiva.
Como escreveu Paolo, Jesus fez três gestos gratuitos à espera da cooperação. A ingratidão do cristão gera um típico efeito do dilema do prisioneiro: Deus perde uma alma, a alma perde o Paraíso.

O problema da cooperação não é apenas o da sua emergência, mas sua sustentação continuada, por várias rodadas do mesmo jogo. O reforço psicológico (um aspecto contextual de aprendizado fundamental para a compreensão realista dos jogos em ambientes sociais, como reconhece Shubik) para o "tit" que se segue ao "tat" pode ser descrito, sem nenhum favor, como gratidão. Pode bem se descrita igualmente como um efeito residual de trocas (monetárias, emocionais, sexuais, etc) continuadas e bem sucedidas. A gratidão reduz, a longo prazo, o custo inicial da cooperação, pela difusão evolucionária da percepção de que o gesto de boa vontade terá uma resposta positiva.
Como escreveu Paolo, Jesus fez três gestos gratuitos à espera da cooperação. A ingratidão do cristão gera um típico efeito do dilema do prisioneiro: Deus perde uma alma, a alma perde o Paraíso.
(imagem: payoffs do dilema do prisioneiro, 2005)
et exi de homine
Considera, quanto la legge nuova sia più stimable, che non era la legge vecchia. Quem transgredia a lei antiga, deveria ser lapidado, incenerito, impiccato. Mais ainda deveria ser quem transgride a nova e Paolo indaga, che t'impone tuo Confessore? Quem peca na nova lei, peca contra o filho de Deus, ainda que peque por ímpeto, por surrezione. Por três capítulos somos obrigados ao filho de Deus: porque encarnou, porque morreu e porque enviou o Espírito Santo. O mais grave, portanto, é a Ingratidão, che aggrava tanto la colpa di un Cristiano.
(gennaio xiii, Hebreus 10, 20).
(gennaio xiii, Hebreus 10, 20).
quarta-feira, 3 de junho de 2009
del ric tesaur qu'Amor l'ensenna

Nada é mais repugnante a nosso racionalismo moderno do que a idéia cristã de um combate com os sentidos. A realidade sensível, desde os escritos de Galileu, propõe, no máximo, enigmas. Podemos atacar um problema, mas não questionamos o neutro conteúdo emocional das coisas desse mundo. O tanto que é possível saber sobre a literatura contemporânea sobre auto ajuda confirma a idéia de que bastaria a evidência e o convencimento para encontrar a paz espiritual e mesmo a felicidade. A experiência com a cura de viciados em jogo, álcool, drogas, fumo, remédios mostra quão frágil é tal suposição.
Os séculos passados eram menos otimistas com respeito à natureza humana. O professor Pierre Hadot imprimiu, como título de seu livro sobre o Imperador Marcus Aurelius, a expressão familiar: a cidadela interior. O estoicismo e várias outras filosofias reconheciam a dimensão de combate espiritual, implícita em uma vida feliz e virtuosa, e a metáfora compreendia as disciplinas do soldado, a obediência, o treinamento, o medo da derrota e o sentimento da vitória. Nos dias que vão é necessário apenas conscientizar-se. É uma notável crença nos poderes da razão.
A condenação de Paolo aos que seguem dominados por uma Mulher, pelo dinheiro, pela fama nada tem de carola quando posta em sua linha genealógica original - o sentimento grego da vida como ágon, como luta.
Notaria apenas uma sensível diferença militar. As Meditações foram escritas à sombra de um combate de morte com os bárbaros, uma guerra defensiva que se tornou ofensiva pela selvageria dos oponentes. O estóico romano, imperador ou escravo, pensa em termos defensivos, na fortaleza inexpugnável da própria alma. A expressão usada por Jesus, segundo Lucas, talvez denote o homem no campo de batalha, que busca o conflito com as coisas desse mundo. A defesa nos faz invencíveis; o ataque nos concede a vitória, escreveu o filósofo.
Os séculos passados eram menos otimistas com respeito à natureza humana. O professor Pierre Hadot imprimiu, como título de seu livro sobre o Imperador Marcus Aurelius, a expressão familiar: a cidadela interior. O estoicismo e várias outras filosofias reconheciam a dimensão de combate espiritual, implícita em uma vida feliz e virtuosa, e a metáfora compreendia as disciplinas do soldado, a obediência, o treinamento, o medo da derrota e o sentimento da vitória. Nos dias que vão é necessário apenas conscientizar-se. É uma notável crença nos poderes da razão.
A condenação de Paolo aos que seguem dominados por uma Mulher, pelo dinheiro, pela fama nada tem de carola quando posta em sua linha genealógica original - o sentimento grego da vida como ágon, como luta.
Notaria apenas uma sensível diferença militar. As Meditações foram escritas à sombra de um combate de morte com os bárbaros, uma guerra defensiva que se tornou ofensiva pela selvageria dos oponentes. O estóico romano, imperador ou escravo, pensa em termos defensivos, na fortaleza inexpugnável da própria alma. A expressão usada por Jesus, segundo Lucas, talvez denote o homem no campo de batalha, que busca o conflito com as coisas desse mundo. A defesa nos faz invencíveis; o ataque nos concede a vitória, escreveu o filósofo.
(Miguel acorrenta Satã. William Blake).
terça-feira, 2 de junho de 2009
Contendite intrare per angustam portam
Considera, che l'entrare in Paradiso non è si facile, come se l'inganano alcuni. Ci vuol forza, ci vuol fatica. Diz o Cristo: contendite. E qual é esse conflito, que se há de sustentar? É aquele entre os sentidos e o Espírito. E quando não entram no Céu? Porque se encontram sempre dando vitória aos sentidos e na hora da morte, querendo dar vitória ao Espírito, renunciando ao amor daquela Mulher, daquele dinheiro, daquela reputação, se encontram enervados de forças e moralmente nada podem fazer. Não basta vencer vez ou outra, ma a rimaner vittorioso.
(gennaio xii, Lucas 13, 24)
(gennaio xii, Lucas 13, 24)
segunda-feira, 1 de junho de 2009
lai en la tor on si jasia

O tropos comparando Lázaro e o homem rico mereceu um dos mais belos corais de J.S. Bach, na cantata sobre a guerra entre o arcanjo Miguel e Satã. Não avançaria, contudo, muito além da parábola cristã sobre a dialética da exaltação e da humilhação, exposta por Jesus, implícita no Velho Testamento, dos Céus como espelho invertido das potências da Terra. Essa mera inversão de papéis entre o Céu e a Terra, sugestiva de um sistema de pontuações teologicamente infantil, não revela toda a leitura de Paolo. Seu segredo está nas últimas linhas, ainda uma vez bem parecidas a um paradoxo zen.
O problema da salvação não está em um sistema linear e explícito de pontuações, que punisse os Reis e os Poderes que estão com o Inferno e mandasse os pobres para o Paraíso. Tal equação seria simples demais. O problema é a incerteza sobre o gesto que realmente importa, por mais mínimo que seja, por mais obscuro que seja. Uma palavra generosa, dita sem muito pensar, pode ser esse gesto; a esmola dada em um momento de felicidade; um pequeno trabalho: tudo isso pode contar para Deus. Ninguém pode saber, por definição; suspeita-se.
As Potências da Terra são ridículas porque parecem mandar muito, mas não produzem, por si mesmas, nada de relevante aos olhos de Deus. Ademais, são perfeitamente substituíveis. Encerrado o funeral de Estado, restam apenas artigos de enciclopédia, fotos e folhas amareladas. Nada mais ridículo, por sinal, do que ex-Potências em vida. As monarquias tinham essa sabedoria: deixava-se o cargo com a Morte. Ex-monarcas são presas fáceis de conspirações de governantes, figuras quase cômicas.
O conteúdo real da história de Lázaro e o homem rico pode ser todo outro, não tão simplório com quer sugerir o coral. Lázaro pode ter sido bem mais que apenas mais um pobre.
(imagem: Alegoria da Morte do Príncipe D. José. 1790. Biblioteca Nacional de Portugal)
Fuit in diebus Herodis, regis Iudaea
Considera quanto vani sono tanti huomini, i quali si afaticano tanto per aquistare tutte l'altre doti, fuori che quella ch'importa. Quantas escolas se têm de música, de canto, de cavalaria, e onde todos vão? Quantos vão a uma que ensina o amor de Deus? Considera que quem é privado daquela sabedoria Divina, che in nihilum computabitur, para que se inteire da moeda que corre no Céu. (porque qualquer homem, mesmo perfeito, entre os homens, não será nada, se lhe falta a Sabedoria que vem de vós, Sabedoria, 9,6, trecho citado). Se estima o valor de um Alexandre, a elegância de um César, a eloquência de Cícero, a astúcia política de um Tibério? in nihilum computabitur. Um mendigo como Lázaro, idiota, lúrido, lércio, cheio de chagas mal cheirosas é mais estimado que todos os grandes homens juntos. Crês nessa verdade? Por que não a pões em prática. Uma pequena palha que recolhes da terra por amor de Deus, uma escudela que laves, um strapazzo que toleres, um ato conquanto mínimo que fazes por mortificação, por humildade, por obediência, por caridade, te rende mais estimável, no Céu, que se fosses um Platão.
(gennaio xi)
(gennaio xi)
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