domingo, 28 de abril de 2013

La care cum s'aude destul ai conlucrat


Nos anos triunfantes das políticas liberais, o discurso de Gordon Gekko em uma assembléia de acionistas, no filme Wall Street (1987), tornou-se um dos símbolos daquilo que não se queria então reconhecer como a ordem moral dos tempos: "a cobiça é boa". A sugestão original, naturalmente, é pouco posterior a Segneri, feita por iluministas escoceses no século XVIII.

O curioso, entretanto, é que a aberta confissão de cobiça não resistiu, no cinema ou na arena pública, nem a um quarto de século. Dois anos depois do início da primeira crise financeira do milênio, em 2010, o mesmo personagem retorna à cena para combater o demônio da cobiça no sucessor "O Dinheiro nunca Dorme".


Nesses mesmos anos, por sinal, prosperavam as ideias sobre a responsabilidade social das empresas, frequentemente usadas como instrumento de protecionismo, mas nem por isso menos sintomáticas do fato mencionado por Segneri: não reconheces a cobiça, mesmo escondida sobre a terra?

sábado, 27 de abril de 2013

Radix omnium malorum


Considera, che in diverso modo è principio dei frutti il tronco, in diverso n’è la radice. Quanti frutti dà la radice, tanti dà ‘l tronco. Contudo, se a soberba gera os males, é o interesse que a nutre. Se não houvesse o interesse, como poderia tanto a soberba? Que pode um soberbo pobre. É o interesse que leva à impiedade, que endurece o coração, que produz a violência, a falácia e a fraude. O interesse pode mais que o medo, pois vai convencendo a si mesmo que a outra vida, seus prêmios e seus castigos, é irreal.

O interesse, sendo raiz, é mais difícil de extirpar. O amor ao dinheiro é quase invencível. A soberba tem muitos objetos, o interesse tem apenas um. Ele perverte o intelecto. Contempla os amantes do dinheiro, vê como vivem. Dinheiro é labuta e sacrifício. Dê logo o dinheiro a Deus e livre-se desse peso. Doe sempre, desapegue-se, pois o interesse, como a raiz, está sempre lá, invisível. Non saranno in te, per favor Divino, quei frutti così pestiferi che l’interesse produce, perch’egli hà poco pascolo da nutrirsi, ma credi tu, che non vi sia la radice?

(marzo xxx…  Radix omnium malorum ets cupiditas.. I Timóteo.6.10)

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A copilei dulce frunte cu vii umbre colora

Nenhuma ideia moderna parece mais hostil às religiões tradicionais do que a autonomia individual. Nascida da reforma protestante, teve logo uma tradução política e, posteriormente, existencial. Segneri não foi o primeiro a notar que a autonomia individual pode levar à inconstância, à frivolidade e ao sofrimento pessoal, mas registra corretamente que a única saída possível para a autonomia individual é aceitar, na graduação mais conveniente, uma orientação espiritual externa. Boa parte dos seres humanos demanda um guia.

Mesmo essa ponderação, contudo, soa ofensiva a ouvidos contemporâneos. Quem aceitaria, publicamente, seguir a orientação de outrem? A submissão intelectual ou volitiva tem inegável valência negativa, apesar da proliferação de literatura de auto-ajuda, inclusive financeira.

O mais curioso é que, no plano espiritual, a perda de prestígio das formas tradicionais de liderança foi logo compensada pela emergência de outras modalidades, talvez mais coloridas. Nenhuma delas é mais significativa no Ocidente do que o culto do guru, importado, a partir dos anos 1960, das religiões indianas. As causas alegadas do fenômeno vão desde o multiculturalismo ao declínio dos valores ocidentais, mas sua manifestação não perde o sabor paradoxal. Um indivíduo ocidental a quem repugnaria o rito da confissão católica pode adotar, sem maiores escrúpulos, rituais e mitologias radicalmente estrangeiros. Sob uma nova identidade, talvez, o guia espiritual pareça menos opressivo.

Na verdade, a busca pelos mais variados tipos de guia espiritual vem tornando-se mais intensa sob o reino da autonomia individual, um fato que não surpreenderia Segneri. Os conteúdos variam, como mostra o recente New Religions in a Post Modern World (2002), de Render Kranenborg e Mikael Rothstein, de maneiras quase bizarras, mas o desejo de uma orientação espiritual que alivie o peso da autonomia individual permanece.

sábado, 14 de julho de 2012

Confundetur Israel

Considera, che il fine principalissimo per cui tanta gente, ancora spirituale, e sì inclinata a far la sua volontà, è perche spera in essa di trovar quiete. E ainda assim, se vai ao oposto, pois se existe algo que te pode meter em confusão é seguir tua vontade. Sempre duvidarás se é melhor fazer deste ou daquele modo, se tratar com o próximo ou viver retirado, se dormir ou velar, se comer ou jejuar.

Se queres encontrar a paz, deve submeter-te a um diretor que te governe. Vê como fazem os litigantes que buscam um Árbitro. A carne e o espírito são litigantes terríveis! Mesmo Israel se confundiu, mesmo Paulo. Os íntimos de Deus se deixaram governar por outros. Considera a felicidade de quem se fez religioso e se consagrou a uma obediência perpétua. Não é esta, uma quieta maravilhosa? Habbi però una somma fede al valore dell'ubbidienza, e tien per indubitato, che chiunque si vorrà governare da se, resterà confuso: confundetur Israel in voluntate sua. Chi non resterà mai confuso? Sol chi ubbidisca, si audierint, et observaverint, complebunt dies suos in bono et annos suos in gloria. Iob 36.11. complebunt dies suos in bono, perche viveranno quietissimi, et complebunt annos suo in gloria, perche morrano gloriosi.

(marzo xxix... Confudetur Israel in voluntate sua... Oséias, 10.6).

terça-feira, 22 de maio de 2012

Acopere totul, crede totul, nădăjduieşte totul, sufere totul

A bela figura retórica empregada por Segneri para descrever a paz alcançada pelos justos, sustentada por negativas, é uma referência clara à celebre passagem da primeira Epístola aos Coríntios (13, 4), quando Paulo define a natureza do amor (ágape):


"4.O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não se vangloria, não se ensoberbece,
5 não se porta inconvenientemente, não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não suspeita mal;
6 não se regozija com a injustiça, mas se regozija com a verdade;
7 tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta."

Tal encômio do amor, contudo, não foi uma invenção do apóstolo: representa uma figura literária conhecida na cultura grega. Tem um igualmente célebre antecessor, exposto nas seções 203c e ss do diálogo platônico "O Banquete". Como é sabido, o amor (eros) é assim descrito:

"E por ser filho o Amor de Recurso e de Pobreza foi esta a
condição em que ele ficou. Primeiramente ele é sempre pobre, e
longe está de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas
é duro, seco, descalço e sem lar, sempre por terra e sem forro,
deitando-se ao desabrigo, às portas e nos caminhos, porque
tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão.
Segundo o pai, porém, ele é insidioso com o que é belo e bom,
e corajoso, decidido e enérgico, caçador terrível, sempre a tecer
maquinações, ávido de sabedoria e cheio ele recursos, a
filosofar por toda a vida, terrível mago, feiticeiro, sofista: e nem
imortal é a sua natureza nem mortal, e no mesmo dia ora ele
germina e vive, quando enriquece; ora morre e de novo
ressuscita, graças à natureza do pai; e o que consegue sempre
lhe escapa, de modo que  nem empobrece o Amor nem
enriquece, assim como também está no meio da sabedoria e da
ignorância."

terça-feira, 1 de maio de 2012

Sedebit populis meus

Considera, che questo beato popolo, del quale quì si ragiona, non può già essere un popolo, qual è quello degl'imperfetti, mas uno assai spirituale, assai santo, populus peculiaris, perche già si presuppone, che non habbia più di bisogno di stare tutto dì combattendo affanosamente, ma che già goda riposo, mentre incontanente si dice, che sederà: Sedebitis populus meus. Quem são os que alcançam esta sorte? Poucos são - os que são senhores do seu querer. Tu entendes a rara felicidade de quem combateu por longo tempo e alcança o domínio de si mesmo? A paz não é outra coisa que a tranquilidade em ordem: não inveja, não presume, não litiga, não persegue, não ambiciona e sabe viver em paz mesmo com os que são amantes da guerra. É ordenado com Deus, porque em tudo se submete a Ele.

Ó tu, beato, se soubesses por uma vez deixar-te invadir por tão digna paz. Não vês tu como é bela?

O Justo, após haver repousado na paz, na morte descansa no Tabernáculo da Confiança. Nos pagos do Senhor. Como a Pomba, que não sai a combater o Falcão no ar aberto, mas retira-se aos bosques escuros. Saciado na memória, saciado na vontade, plena de Deus, saciado no exercício da virtude, saciado no bem, saciado pela total saciedade que possa haver em todos os seus sentidos. Saciado no gosto do celeste maná. E finalmente saciado pela fonte da saciedade que é Deus, pois Ele não tem necessidade de nada. Procura, pois, ser parte desse Povo. Se vuoi requie dopo la morte, convien che alla requie preceda la fatica, si che ti spendi per Dio, ti strugghi per Dio, e ti curi poco di umani sollevamenti infino a tanto, che dicat tibi Spiritus, non il Corpo, ut requiescas à laboribus tuis. Apoc.14.13.

(marzo xxviii, Sedebit populus meus.... Is. 32.18)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

El singur sa'mi stea fata in acele minute

O caráter espiritual da concentração da mente nas mínimas ações que cada um pratica em sua vida cotidiana ou em seu ofício cotidiano é hoje uma figura retórica comum. Ela se espalha pelas literaturas de auto-ajuda modernas, mas avança também sobre as descrições populares das religiões orientais. Em Segneri, naturalmente, o sentido é bem mais preciso: esta concentração é necessária para realizar a intenção pura e para invocar corretamente a ajuda divina. De forma sutil, ele insinua que cada gesto pode se transformar em um ritual.

O efeito terapêutico e salvador desta concentração pode revelar-se em ocasiões surpreendentes. Em sua obra pungente sobre o Gulag soviético, Anne Applebaum descreve como a capacidade pessoal de isolar-se, por meio de tarefas comuns, do horror do trabalho forçado e da injustiça contribuía para a sobrevivência de muitos prisioneiros.

Escrever poesia, fabricar colheres ou agulhas para os que precisavam, meramente dedicar-se a ouvir um amigo, lavar ritualmente as próprias roupas, manter a rotina de tomar banho foram recursos empregados para, de alguma maneira, preservar a dignidade interior (Gulag. A History, 2003, págs 346-347). Mesmo uma celebração mínima do ritual da Páscoa Ortodoxa atraía crentes e ateus.

Na mera atenção ao que fazemos, argumenta Segneri, está a salvação.





sábado, 18 de fevereiro de 2012

Omnibus operis tuis


Considera, che qui alla fine si hà di ridurre tutta la tua perfezione: a far le azioni, che sono proprio di quella comunità, di quell carico, di quell grado, in cui Dio ti hà posto, ma a farle eccelentemente. Imaginas que ações grandiosas te darão a santidade? Quem te disse? A tua soberba? Deus pede as obras de teu ofício. A santidade não consiste em fazer obras excelentes, mas em fazê-las de forma excelente. Ela não se busca nas obras, mas no operante. 

Quem faz mais proezas que as damas chamadas fortes? Como Débora, como Judite. Se bem ponderas, todas as suas bravezas terminaram em bem fiar, em prover-se de lã e de linho, em não deixar que, de noite, a lâmpada se apague. Cumpre fazer as obras de modo interno, perfeito, com intenção reta, endereçando tudo a Deus, ao maior gosto de Deus, à maior glória de Deus. Não faça como os navegantes que não cuidam da viagem de seu barco, que apenas cantam e gastam seu tempo. Não sabes quão benévolo é o Senhor? Faz o contrário dos homens: paga pela vontade como paga pela obra.

E pede sempre ajuda a Deus. Ele não se molesta com este freqüente socorro. Não sabes que ele é um amante e vai perdidamente por ti? Isto é próprio de um grande amante: proclamar ter parte em toda a obra do amado, meter-se em tudo, ingerir-se em tudo, tomar a si o assunto do amado. Se queres dar gosto a Ele, que tanto te ama, chama-o em toda a obra que fazes. E cosi quanto più almeno ti sai possibile: In operibuis tuis pracellens esto: facendole nell’esterno com esattezza, nell’interno com eminenza di carità, superiore a quella, che si usa comumente, già che questo appunto à praecellere, è spiccare sobra la turba.

(marzo xxvii... In omnibus operibus tuis... Eclesiátisco 33. 23)





Se poi il divoto Lettore si dolesse

Os capítulos finais do Ragguaglio contêm algumas narrativas adicionais das penitências a que Segneri se submetia, entre elas ser açoitado enquanto amarrado a uma coluna, como Jesus, e queimado com a cera quente de velas. Era difícil, por vezes, arranjar quem o ajudasse em tais extremos.

O autor se pergunta, ao final, porque uma pessoa com tais méritos intelectuais e espirituais permaneceu praticamente desconhecida em seu tempo. É porque sempre os manteve em segredo enquanto viveu.

Ragguaglio, capítulos LXVI a LXVIII (fine).

domingo, 29 de janeiro de 2012

Catand in viata pacea, si 'n pace multumirea

Os paradoxos implicitos no julgamento moral de atos individuais encontram uma exposição canônica na Sura 18, A Gruta, quando Moisés interroga um dos Servos do Senhor:

"E encontraram-se com um dos Nossos servos, que havíamos agraciado com a Nossa misericórdia e iluminado com a Nossa ciência.
E Moisés lhe disse: Posso seguir-te, para que me ensines a verdade que te foi revelada?
Respondeu-lhe: Tu não serias capaz de ser paciente para estares comigo.
Como poderias ser paciente em relação ao que não compreendes?
Moisés disse: Se Deus quiser, achar-me-á paciente e não desobedecerei às tuas ordens.
Respondeu-lhe: Então segue-me e não me perguntes nada, até que eu te faça menção disso.
Então, ambos se puseram a andar, até embarcarem em um barco, que o desconhecido perfurou. Moisés lhe disse: perfuraste-o para afogar seus ocupantes? Sem dúvida que cometeste um ato insólito!
Retrucou-lhe: Não te disse que és demasiado impaciente para estares comigo?
Disse-lhe: Desculpa-me por me ter esquecido, mas não me imponhas uma condição demasiado difícil.
E ambos se puseram a andar, até que encontraram um jovem, o qual (o companheiro de Moisés) matou. Disse-lhe então Moisés: Acabas de matar um inocente, sem que tenha causado morte a ninguém! Eis que cometeste uma ação inusitada.
Retrucou-lhe: Não te disse que não poderás ser paciente comigo?
Moisés lhe disse: Se da próxima vez voltar a perguntar algo, então não permitas que te acompanhe, e me desculpe.
E ambos se puseram a andar, até que chegaram a uma cidade, onde pediram pousada aos seus moradores, os quais se negaram a hospedá-los. Nela, acharam um muro que estava a ponto de desmoronar e o desconhecido o restaurou. Moisés lhe disse então: Se quisesses, poderia exigir, recompensa por isso.
Disse-lhe: Aqui nós nos separamos; porém, antes, inteirar-te-ei da interpretação, porque tu és demasiado impaciente para isso:
Quanto ao barco, pertencia aos pobres pescadores do mar e achamos por bem avariá-lo, porque atrás dele vinha um rei que se apossava, pela força, de todas as embarcações.
Quanto ao jovem, seus pais eram fiéis e temíamos que os induzisse à transgressão e à incredulidade.
Quisemos que o seu Senhor os agraciasse, em troca, com outro puro e mais afetuoso.
E quanto ao muro, pertencia a dois jovens órfãos da cidade, debaixo do qual havia um tesouro seu. Seu pai era virtuoso e teu Senhor tencionou que alcançassem a puberdade, para que pudessem tirar o seu tesouro. Isso é do beneplácito de teu Senhor. Não o fiz por minha própria vontade. Eis a explicação daquilo em relação ao qual não foste paciente." (Sura 18, A Gruta, 65-82)

O texto do Corão não afirma diretamente quem seja o "nosso servo" mencionado no verso 65, mas os comentários não têm dúvida em identificá-lo com Al Khidr, o verde, uma figura espiritual do mundo pré-islâmico, um mensageiro de Deus, dotado de juventude eterna, incorporado posteriormente à tradição.(http://khidr.org/).


Satul de mari nimicuri ce nu dau fericirea

Comentário breve e cortante de Segneri. Os estudos sociológicos mostraram há décadas que os elementos fundamentais que constituem nosso destino, nossa língua, nossa família, nossa posição social e mesmo nossa saúde, são dados. Não os escolhemos, nem os conquistamos. É rara uma história de sucesso ou de fracasso que seja realmente pessoal em sua última raiz. A questão é o que você faz com o que lhe é dado.

Nesse ponto, Segneri toma parte em um problema tão paradoxal quando o problema do Mal: o problema do Bem. O bem que fazemos é realmente o bem? Se nossa existência é parte de uma cadeia incontrolável de eventos, tal como a representa o pensamento secular, não há como saber se o bem que fazemos hoje não será mal amanhã. Os atos humanos fazem parte de uma série infinita, cuja soma é desconhecida.

Segneri afirma que o Bem só pode estar baseado na Graça. Apenas Deus tem a ciência necessária das causas e dos eventos para definir o que é o Bem. O resto, fazemos no escuro, apenas com o melhor das intenções.




Quoy qu’en tout temps l’aumosne soit utile
Aux souffreteux, point ne faut de trompette
A l’annoncer, comme dit l’Evangile.
La charité de coeur vraye & parfaicte
Ne veut tesmoins de son oeuvre bien faicte.
Car il suffit que Dieu bien apperçoit,
Que l’indigent de ton bien a disette.
Le publiant son salaire reçoit.

Georgette de Montenay. Emblemas Cristãos (1584). 

cuius consummation in combustionem

Considera la differenza terribile, la qual passa fra Terra, e Terra; ambedue ricevono le stesse grazie dal Cielo, ma non ambedue corrispondono al modo stesso, e cosí una é benedetta, una reproba. O mesmo acontece com duas almas, ambas beneficiadas, mas não do mesmo modo gratas. Examina as duas, não há meio termo.

Nenhuma terra pode produzir sem água; assim é a alma humana. Não basta a vontade para fazer o bem; precisa da Graça. O Céu te envia muitos tipos de água: a inspiração interior, pluvia in vellus, as prédicas, os conselhos, os confortos, as correções, Tanto são elas abundantes. É ele que move a língua do predicador, do pároco, do confessor. E como hás reagido? Que bem hás feito? Se apenas espinhos produzes: que grande suplício te espera.

Considera como se fala desta Terra: a reprovação, a condenação e a punição. A pena para a terra fértil de ervas daninhas é o fogo. Là dove la ingrata lo muove a sospendere il socorso a tutti e a far che già non piovano sopra lei più acque, ma fimme.

(marzo xxvi... Terra saepe venienten super se... Hebreus. 6. 7)

sábado, 31 de dezembro de 2011

Oh che vergogna sara mai la mia

Nanti continua examinando em detalhe o comportamento de Segneri diante da consciência aguda de ser um pecador e das dúvidas sobre sua salvação. As penitências mais drásticas podem surpreender um leitor moderno, mas a narrativa é equilibrada e realista. Segneri estende-se, por exemplo, pelo que poderia ser descrito como fantasias de martírio, como o desejo de ser raptado e aprisionado por bandoleiros (um fato ordinário na Itália de então) ou ser capturado pelos turcos e feito escravo.

As menções aos cilícios e às flagelações rotineiras são compensadas pelo reconhecimento de que dormia as seis horas regulares e não tinha condições de manter um jejum prolongado. Certa vez, durante uma missão, deixou de comer e teve febre. Depois do episódio, manteve a escala regular de refeições, abstendo-se apenas de "pratos mais saborosos". Da mesma maneira, usava uma roupa rude, feita de pelo de cabra, quando em missões ou no seu trabalho diário da Ordem, mas quando foi forçado a viver em Roma, o calor do verão o levou a mudar sua vestimento. O hábito simples que usava, sem maior proteção, fazia-o padecer no inverno. Ele mesmo reconhecia sua sensibilidade ao frio.

Após seu falecimento, encontraram uma corrente de anéis de ferro aguçados com trinta e cinco palmos: com ela envolvia praticamente todo o seu corpo.


Raguagglio, capítulos LXII a LXV.



Cilício italiano do século XIX

Ca fantome de mari secoli pe eroi loru jelesc

Não se pode negar a Segneri um fino sentido de ironia, diretamente ligada à sua longa observação dos seres humanos. O amor de Deus, por exemplo, expresso na Encarnação, imediatamente põe em questão o amor dos Homens. Amar a Deus ou apreciar o amor de Deus pode ser problemático para muitos, mas esses mesmos muitos amam com facilidade um cavalo ou um cachorro. Ou um plátano.

O amor de Deus também revela uma estranha troca: que Deus tem a ganhar com o amor pelos Homens? Doar uma jóia, como ele escreve, não diminui a jóia; mas trocá-la por um pedaço de pão certamente a avilta. Deus, no entando, trocou seu Filho pelas almas dos Homens.

Como é possível entender o amor de Deus? Apenas os santos, no Paraíso, o compreendem, diz Segneri.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Sic Deus dilexit Mundun

Considera attentamente l'altezza somma di questa sentenza, la quale uscita dalla bocca di Cristo, contiene in se più miracoli, che parole. Que Deus ame a si mesmo, não é de espantar, mas que ame algo fora de si é estupendíssimo, tanto mais quanto se considera quanto de bom há fora de si mesmo. Mesmo as coisas que, em si estão mortas, em Deus estão vivas. Ele pode iluminar sem o Sol, pode refrigerar sem a água. Em si, tem todas as perfeições. Que grande prodígio é que ame algo fora de si! E ama o gênero humano! Muitos amam coisas estranhas: pássaros, cães, cavalos. Houve um que se enamorou de um tronco de plátano. Mesmo que isso acarretasse alguma servidão, algum benefício colhiam. Mas Deus, que benefício pode colher de seu amor? E amou o Mundo, a todos; não a alguns. E também não ama, mas amou, desde sempre, desde a eternidade. E deu seu Filho, que era Deus. Não como os homens. Um Filho unigênito. E deu. Uma jóia rica pode ser doada a um personagem vil sem aviltá-la; mas não se pode, sem aviltá-la, dar em troca de nada ou por chumbo ou um pedaço de pão. E Deus deu seu Filho em troca da alma dos Homens. É um amor compreendido apenas pelos Santos, que já estão no Céu. Che son le quattro dimensioni medesime, considerate da noi nell'amor Divino, conforme il lume somministratoci da queste gran parole di Cristo: Sic Deus dilexit Mundum, ut filium suum unigenitum daret, che ben potrai meditare per tutta la tu vita con perpetuo pascolo.

(marzo xxv ... Sic Deus dilexit.... João, 3, 16).

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Fii vostri vor ascunde a lor frunte in terina

Sobre Romanos 8.17, o trecho comentado por Segneri no século XVII, escreveu Karl Barth no século XX:

"Nossa humana presente existência - ela mesma não eterna, mas trazendo em si a eternidade não nascida - é encoberta pelo sofrimento, como um manto escuro, por uma espada desembainhada, por uma parede alta. Em si mesma, nossa vida é contestável; não há nela repouso, pois, sendo finita, é definida e constituída pela ambiguidade. Nossas experiências das limitações temporais de nossa existência, do estreito vazio de nossos poderes, das grandes e pequenas tribulações que, como fragmentos da Terra, devemos suportar em dor, são apenas sombras de nossa finitude. O que cedo ou tarde encontraremos como barreira final é a Dor em nossa dor. Não devemos permanecer em ignorância que a este ponto Deus dirige Sua questão a nós e que para ele também Ele prepara a Sua resposta. No Espírito, o segredo de Deus não pode ser escondido. No Espírito, podemos perceber o sentido de nossa vida, manifestado como sofrimento. No Espírito, sofrimento, suportado e aceito, pode se tornar nosso avanço em direção à glória de Deus. Esta revelação do segredo, esta compreensão de Deus no sofrimento é a ação de Deus em nós. Tal compreensão é o testemunho do Espírito, pelo qual é permitido à Verdade ser a Verdade e também a garantia de que somos filhos de Deus e, como tais, herdeiros de sua glória." (Epístola aos Romanos, OUP, 1968, pág 301)

Ipse Spiritus testimonium

Considera, che testimonianza sia questa, che lo Spirito Santo ci rende, di esse noi figliuoli di Dio. Não é eterna, como aquela que Cristo recebeu no Jordão; mas é interna; pois que se diz que a dá pela via do Espírito, não dos olhos ou dos ouvidos. Ela consiste no íntimo senso de amor filial. Opera por amor, não por temor. Sua nobre consequência é ser herdeiro de Deus. Muito melhor que ser herdeiro terreno, pois só herdam quando morto é o pai. A outra herança é o Pai ele mesmo. Nem se divide com outros filhos. E somos herdeiros também de Cristo; coisa maravilhosa: que outro filho natural buscou outros herdeiros para seu Pai? Mas esta herança celestial não se conquista como as terrenas, sem mérito, sem busca, às vezes dormindo. É preciso conquistá-la. Se queres reinar com Cristo, precisas sofrer com Cristo. Benche quando mai dovrai tu patire una minima particella di ciò c'hà patito Cristo? Patirai con Cristo, ma non patirai come Cristo.

(marzo xxiv...Ipse Spiritus testimonium reddit... Rom. 8. 17)

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Dar Rumani nu vor pacea

Lê-se na internet que, dentre os artefatos produzidos pelo homem e preservados pela História, os mais numerosos são os potes de maquiagem do antigo Egito. Milhões jazem espalhados como lixo pelos desertos em torno do rio Nilo, um mudo testemunho da vaidade e também da indústria humana. O prestígio dessa atividade é tamanho que recentemente fabricantes franceses de cosméticos buscaram recuperar suas técnicas e seus desenhos.

O esforço de tornar eterno o efêmero esbarrou, contudo, em realidades mais prosaicas: boa parte das substâncias cosméticas usadas no antigo Egito provocam sérias intoxicações por metais ou irritações cutâneas intoleráveis para os padrões sanitários modernos.

Este é apenas um exemplo da observação precisa de Segneri, baseada em um texto célebre do Evangelho. Adorar as coisas desse mundo, para o homem, é, na verdade, adorar as coisas de apenas um século, talvez menos. Os padrões de beleza, de consumo, de luxo, de ostentação mudam constantemente. O Biltmore Estate, na Carolina do Norte, foi construído como exibição de fortuna privada, passou a museu e está reduzido a um hotel. As ilusões amadas pelos homens de um século são irreconhecíveis para os homens de outro século. Cigarros já foram considerados sinal de riqueza e sofisticação. Amar as coisas desse mundo é amar coisas que estão condenadas à morte ou ao ridículo.

A eternidade tão ambicionada pelos homens, a extensão ou o sentimento da extensão temporal, pode ser apenas sugerida pelas coisas que são eternas, como Deus. Um contemporâneo de Segneri escreveu, no último livro de sua obra sobre ética, que o amor intelectual de Deus é eterno e mais: "do terceiro gênero de conhecimento necessariamente surge o amor de Deus. Deste tipo de conhecimento nasce o prazer acompanhado pela idéia de Deus como causa, ou seja, o amor de Deus; não enquanto o imaginamos presente, mas enquanto o entendemos como eterno".




Representação contemporânea da maquiagem egípcia.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Quicunq volueriti amicus

Considera, che Secolo è una misura di ciò che passa, e misura massima. Primeiro é a hora, depois o dia, depois a semana, depois o mês, depois o ano, depois vem o século. E é nesse tempo que se gozam as coisas: um século só. Deus, ao contrário, é imortal e imutável, não se submete a nenhuma medida do tempo. Quais bens preferes? Os do século? Ou os eternos? Seria impossível duvidar da escolha, não fossem tantos os que preferem o século. Vêem o presente, não o futuro. Quem é amigo do século, é inimigo de Deus. Veja que não estar no século, mas ser amigo do século. Ma come mai potrai giungere a questo stesso [a lei de Deus]?Col pensare spesso fra te, che cosa sono alla fine tutti que' beni, che il Secolo ti può dare, i suoi piaceri, le sua richezze, i suoi onori. Se pur son beni, sono al più lungo tutti beni di un Secolo.

(marzo xxiii... Quicunq volueriti amicus... Iac.4.14)

* (A passagem é Tiago 4, 4)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Eu me opriiu pe valea bogata in morminte

A sofisticação psicológica das notas de Segneri só podem ser explicadas por sua longa e calculada observação do comportamento humano. A atitude de seu "peregrino", sempre andando na beira do abismo, mesmo quando conhece a dimensão do abismo, por muitas décadas foi compreendida em termos morais ou atribuída a forças ocultas. Apenas recentemente seu caráter obsessivo recebeu uma descrição científica sob o conceito de comportamento de risco. Note-se que não se trata, aqui, de um obsessão induzida por razões diretamente patológicas; o comportamento de risco é mantido mesmo quando a mente, racionalmente, reconhece os perigos nele implicados.

A preocupação contemporânea com o fenômeno teve sua origem, naturalmente, na epidemia de HIV/AIDS. Sem cura ou tratamento eficaz por muitos anos, a transmissão da enfermidade não ocorria, geralmente, por atos e eventos independentes da vontade da pessoa contaminada. Como os valores modernos não podem aceitar, por conta de seu iluminismo otimista, que a prática sexual seja induzida diretamente por fatores que estão além da vontade individual, restava admitir que a consciência humana, mesmo posta diante de um risco evidente, preferia andar à beira da precipício, tal como o "peregrino" de Segneri.

Hoje, contudo, esforços crescentes de engenharia social levaram o conceito de comportamento de risco muito além do campo sexual. Práticas alimentares de crianças, hábitos sexuais de adolescentes, vícios adultos, reações ao estresse ou mesmo o suicídio de militares são estudados sob a perspectiva do comportamento de risco.

Uma rápida análise dessa literatura psicológica mostra, contudo, um beco sem saída. Como os seres humanos modernos, por definição, são sempre bons e racionais, a única explicação para um comportamento de risco precisa ser externa. Sendo externa, ela limita o livre arbítrio do sujeito e, por decorrência, a própria idéia de um comportamento que deliberadamente assume riscos.

Segneri não sofre com esses dilemas. O problema é a fraqueza humana, incapaz de caminhar mesmo em uma estrada plana.


"Te lleva tu alvedrio a unión con Dios o con el bruto impio"


Juan de Rojas. Representaciones de la Verdad Vestida, Mysticas, Morales y Alegoricas sobre las Siete Moradas de Santa Teresa de Jesus, Gloria del Carmelo, y Maestra de las Primitiva Observancia. Madrid, 1679. Terceras Moradas.